A Importância do Planejamento Urbano para a Prevenção de Tragédias*

A negligência no planejamento urbano e a falta de medidas preventivas expõem cidades a riscos elevados e desastres naturais, como demonstrado pela recente tragédia no RS

Sucatas de autos no Pátio de veículos próximo a PRF totalmente alagado em Porto Alegre | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O planejamento urbano é algo essencial para o desenvolvimento sustentável das cidades e para a qualidade de vida de seus habitantes. Ele envolve a organização e a regulamentação do uso do solo, a fabricação de infraestruturas e serviços públicos, e a preservação do meio ambiente. Segundo Jacobs (2011), um bom planejamento urbano deve considerar a interação dinâmica entre pessoas, edifícios, ruas e espaços públicos, promovendo a vitalidade e a segurança das comunidades.

A recente enchente no Rio Grande do Sul é um exemplo trágico das consequências de um programa inadequado. A falta de medidas preventivas, como a construção de sistemas eficientes de drenagem, a preservação de áreas verdes e a regulamentação do uso do solo, contribuiu significativamente para a magnitude dos danos. De acordo com Hall (1995), a urbanização desordenada e a ocupação irregular de áreas de risco são fatores que agravam as vulnerabilidades das cidades a desastres naturais.

O poder público desempenha um papel crucial para isso. Governos têm a responsabilidade de elaborar e implementar planos diretores que orientem o crescimento das cidades de maneira responsável. A omissão ou falhas na execução desses planos podem ter consequências desastrosas, como evidenciado pela enchente no RS. Sem uma gestão adequada, áreas de risco ficam ao léu, e a infraestrutura necessária para mitigar os impactos de eventos climáticos extremos é sucateada.

Além das falhas de planejamento, o chamado aquecimento global intensifica a frequência e a severidade de eventos climáticos extremos, como enchentes, tempestades e secas. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), é imprescindível que as cidades adotem estratégias de adaptação para enfrentar esses desafios. Um poder executivo sério deve integrar considerações sobre a resiliência climática, incorporando infraestrutura verde e práticas responsáveis.

Por outro lado, a urbanização sustentável pode desempenhar um papel significativo na mitigação dos efeitos das alterações climáticas. Campbell (2012) defende que a criação de cidades compactas e bem conectadas pode reduzir a emissão de gases de efeito estufa ao diminuir a necessidade de transporte motorizado. Além disso, a implementação de tecnologias de construção ecológicas e a promoção de energias renováveis são componentes chave do município que visa agir de modo consequente.

A participação da comunidade neste processo é igualmente importante. Envolver os cidadãos na tomada de decisões ajuda a garantir que as necessidades e preocupações da população sejam atendidas. Segundo Forester (1989), a comunicação aberta e a colaboração entre poder público e sociedade civil são fundamentais para o desenvolvimento de planos urbanos eficazes e inclusivos, sendo que a falta de diálogo pode resultar em soluções inadequadas ou na resistência às mudanças necessárias.

O investimento em educação e capacitação de profissionais gabaritados também é essencial. A formação contínua de urbanistas, engenheiros, arquitetos e gestores públicos garante atualização com as melhores práticas e inovações tecnológicas. O conhecimento técnico e a competência na aplicação de princípios básicos da organização do espaço são cruciais para a elaboração de soluções eficazes e sustentáveis.

A integração de tecnologias de informação e comunicação é outra tendência importante que observamos. Ferramentas como Sistemas de Informação Geográfica (SIG) e modelagem de dados podem melhorar significativamente a análise e a gestão da cidade. Para Batty (2018), essas tecnologias permitem uma compreensão mais detalhada e precisa dos padrões urbanos, facilitando a elaboração de estratégias de prevenção de desastres.

Além disso, é vital que as políticas públicas promovam a equidade social e o acesso justo aos recursos urbanos, ou seja, a desigualdade socioeconômica muitas vezes resulta em uma maior vulnerabilidade de comunidades de baixa renda a desastres naturais. Harvey (1973) nos mostra que a justiça espacial deve ser um princípio orientador da organização do espaço, garantindo que todos os cidadãos tenham acesso a habitação segura, infraestrutura adequada e serviços essenciais.

A cooperação entre diferentes níveis de governo e a coordenação de políticas públicas são fundamentais para a eficácia do planejamento urbano, portanto a falta de alinhamento entre as variadas esferas pode resultar em políticas contraditórias e ineficientes, como é o caso do RS, em que prefeito e governador vivem uma luta imaginária contra o o governo federal. Florida (2012) argumenta que a colaboração intergovernamental e a partilha de responsabilidades são necessárias para enfrentar os desafios complexos do desenvolvimento urbano contemporâneo.

Finalmente, a resiliência urbana deve ser uma prioridade. Cidades resilientes são aquelas que não apenas conseguem resistir e se recuperar de desastres, mas também aprendem e se adaptam para prevenir futuros eventos. Segundo Metzger & Robert (2013), este conceito envolve a capacidade de antecipar, absorver, e se recuperar de eventos adversos, através de uma organização capaz de incorporar flexibilidade, redundância e capacidade de resposta rápida.

Em suma, a falta de planejamento urbano adequado foi um componente essencial na enchente do Rio Grande do Sul. O poder público local teve um papel crucial nisso, tendo enorme culpa nesta tragédia, afinal de contas foi sua sua omissão que agravou os impactos das mudanças climáticas ao deixar as comunidades vulneráveis. Portanto, dizer que ninguém tem culpa no que ocorreu é apenas uma forma de desviar a atenção de quem não agiu como deveria, não planejando o espaço urbano e deixando de lado as recomendações científicas.

REFERÊNCIAS

BATTY, Michael. Inventing Future Cities. Cambridge, MA: The MIT Press. 2018.

CAMPBELL, Tim. Beyond Smart Cities. How Cities Network, Learn, and Innovate. London, New York: Earthscan. 2012.

FLORIDA, Richard. The Rise of the Creative Class, Revisited. New York: Basic Books, 2012.

FORESTER, John. Planning in the Face of Power (Book Review). Healey, Patsy. The Town Planning Review; Liverpool Vol. 60. 1989. 469 p.

HALL, Peter. Cidades do amanhã: uma história intelectual do planejamento e do projeto urbanos no século XX. São Paulo: Perspectiva, 1995.

HARVEY, David. Social justice and the city. Baltimore, MD: Blackwell, 1973.

JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. Tradução de Carlos S. Mendes Rosa. 3. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. 532 p.

METZGER, Pascale; ROBERT, Jérémy. Elementos de reflexión sobre la resiliencia urbana: usos criticables y aportes potenciales. Territorios, núm. 28, 2013, pp. 21-40. Universidad del Rosario. Bogotá, Colombia.

* Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) é Biólogo, Geógrafo, Professor, Dr. em Ciências Naturais e Docente do IFMG.

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