A mídia no terceiro turno
O jornalista Eduardo Ramos, do portal de notícias Primeira Hora, de Rondonópolis-MT, analisa o papel da mídia e defende a democratização dos meios de comunicação.
Publicado 13/11/2006 11:59 | Editado 04/03/2020 16:49
Acuada pela forte pressão popular e ainda abalada pela derrota de seu candidato no segundo turno, a Grande (?) Mídia uniu-se agora em torno do combate as supostas violações à liberdade de imprensa que estariam sendo cometidas por agentes do Governo Federal e/ou aliados do presidente Lula. É o velho diversionismo colocado em prática, desta vez com duplo objetivo: evitar as críticas à vergonhosa atuação no pleito eleitoral e impedir a retomada do debate sobre a democratização da mídia no Brasil.
O grosso dos ataques feitos até aqui refere-se à convocação de jornalistas da revista Veja para deporem na PF e à quebra do sigilo de dois aparelhos telefônicos pertencentes ao jornal Folha de S. Paulo. No primeiro caso, os jornalistas foram chamados como testemunhas, num inquérito que apura um crime que teria ocorrido na delegacia da PF e foi denunciado por eles nas páginas de Veja. No segundo caso o número dos aparelhos da Folha estavam na memória do telefone de um dos ‘aloprados’ presos na operação Tucanossuga. Aliás, junto com os dois aparelhos da Folha a investigação quebrou o sigilo de outros 164 números.
Li o que foi publicado sobre os dois casos (inclusive as notas oficiais) e não vi nada de errado. Os policiais agiram de acordo com a lei e não há do que reclamar. Dizer o contrário é pretender para a imprensa um tratamento que poria em risco o princípio de que todos somos iguais perante a lei – conceito basilar da sociedade democrática.
Para ocultar a verdade, a Grande(?) Mídia confunde deliberadamente os conceitos de ‘Liberdade de Imprensa’ com ‘Liberdade de Empresa’. A primeira é uma conquista coletiva que deve ser preservada sob qualquer condição, enquanto a outra refere-se a um setor específico que deve sempre estar submetido aos interesses do conjunto da população. Nem uma das duas deve ser usada como proteção para delinqüentes que utilizam órgãos de imprensa ou empresas para lesar outros indivíduos, outras empresas ou a própria sociedade.
A cortina de fumaça lançada pela Grande (?) Mídia é espessa, mas não está impedindo os brasileiros de vislumbrarem a verdade. Temas como o Conselho Nacional dos Jornalistas, sepultado prematuramente pela pressão dos barões da mídia, estão sendo retomados. O mesmo se aplica à discussão sobre a falta de transparência na aplicação dos recursos publicitários do Governo Federal – hoje destinados quase que exclusivamente aos grandes veículos (Globo, Folha, Estadão e revistas semanais inclusos).
O terceiro turno da eleição anunciado pelos opositores de Lula está ocorrendo, mas não da forma prevista. O que está em jogo agora é a construção de uma estrutura de comunicação mais democrática e transparente.
As reações histriônicas dos barões da mídia talvez sejam os espasmos finais deste modelo viciado e ultrapassado. Tomara.
Autor: Eduardo Ramos é jornalista.