Reeleição de Trump reacende mensagem de Guerra Civil, que estreia este mês

Filme, que chega em 22 novembro na plataforma MAX, enaltece jornalismo e alerta sobre os perigos do extremismo de direita

Cailee Spaeny e Wagner Moura durante cena de "Guerra Civil" | Foto: divulgação/Diamond Films

Com mais uma vitória do bilionário Donald Trump, francamente apoiado por outro bilionário, Elon Musk, os Estados Unidos optaram pela truculência autoritária de quem é sabidamente incapaz de unir uma nação. Pelo contrário, Trump sempre se mostrou hábil em manter sua militância atiçada e em apostar em uma polarização, que pode se acirrar na medida em que, em um segundo mandato (ainda que não consecutivo), Trump pode ampliar seu domínio sobre a máquina pública, inclusive usando-a para perseguir adversários e desafetos. Ele já deu declarações nesse sentido. O Trump que inicia seu segundo mandato parece o mesmo de sempre, com sua metralhadora de xenofobia, desinformação e discurso de ódio em ação.

Neste momento, com a vitória de Trump e aumento do risco para a democracia, vem à cabeça insistentemente, com flashes e mais flashes, uma obra cinematográfica que é uma homenagem ao fotojornalismo: Guerra Civil, uma das melhores de 2024. A reeleição de Donald Trump faz as cores do filme ficarem ainda mais vivas. Se você ainda não assistiu a Guerra Civil, por coincidência, neste mesmo mês em que Trump é eleito nos Estados Unidos, o filme, que passou pelas telas do cinema no primeiro semestre deste ano, estreia no streaming. Guerra Civil entrará no catálogo da MAX no dia 22 de novembro.

Sobre o filme

Para quem nunca ouviu falar ou não está associando o título à história, Guerra Civil, do diretor Alex Garland, é uma superprodução americana estrelada pelo ator brasileiro Wagner Moura. O filme é antes de mais nada uma exaltação do papel do jornalismo, e, mais especificamente, do fotojornalismo, na defesa e manutenção da democracia e no registro de grandes guerras e conflitos. Moura é um repórter viciado em adrenalina que, ao lado de Kirsten Dunst, que é uma veterana fotógrafa de guerra, e mais dois profissionais de imprensa (Cailee Spaeny e Stephen McKinley Henderson), viaja os EUA para uma entrevista com um presidente que está prestes a ser derrubado por rebeldes numa guerra civil.

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O filme retrata o jornalismo em sua essência, como ele deve ser — isento e imparcial —, e não como ele é na prática, com seus vieses e interesses.  “Nós gravamos para que outras pessoas possam fazer as perguntas”, diz em certo momento a fotógrafa interpretada por Dunst. Ainda que essa escolha narrativa soe ingênua, ela é compreensível dentro do contexto político atual, de ataques nem sempre justos à imprensa, em parte suplantada por máquinas de desinformação que são muito piores que ela.

Sobre o contexto político, o filme recebeu críticas por não se aprofundar em questões ideológicas e nas razões que levaram ao caos retratado na trama. Discordo parcialmente. Ainda que o filme propositadamente seja superficial nas questões políticas, ele está longe de ser “isentão”, como alguns críticos e espectadores apontaram. Fico com as palavras do diretor: “O filme oferece respostas, mas de forma sutil”.

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Ainda que tente colocar uma névoa em sua posição política, como por exemplo mostrando uma aliança rebelde entre Califórnia e Texas (estados tradicionalmente de alinhamentos políticos opostos: o primeiro, mais democrata; o segundo, mais republicano), a obra dá algumas pistas sobre o que propõe. Temos um presidente americano que está em seu terceiro mandato — o que é inconstitucional —, que dissolveu as instituições (o FBI, por exemplo), que em seu discurso fala em Deus, pátria e “americanos de bem”, cujos apoiadores atiram na imprensa. Na cena mais tensa e perturbadora da trama, um soldado governista ameaça a equipe de imprensa e pergunta que tipo de americanos eles são. O purismo racial e a xenofobia (principalmente contra chineses) ficam claros. Tiago Gayet, pós-graduado em Sociologia pela USP e professor de História, fala sobre esses aspectos:

“‘Make America Great Again‘ é a máxima da campanha de Trump, assim como os meios para devolver aos EUA seu louvor: construir uma muralha anti-imigrantes. Lembra bastante o modus operandi do nazi-fascismo do entreguerras (1919–1939), de enaltecer uma construção idílica de pátria, colocá-la ‘acima de tudo’ e apontar supostos culpados indesejáveis nesse paraíso a ser construído: comunistas, judeus, populações racializadas etc.

Do outro lado, o das Forças Ocidentais que querem depor o presidente, há soldados negros, asiáticos e mulheres. Suas bases têm pichações multicoloridas, o que possivelmente é usado como recurso narrativo para apontar para uma multidiversidade. Essas cores diversas também estão em detalhes como cabelos e unhas de alguns soldados (o que apontaria para o movimento LGBT+). Além disso, essas bases militares rebeldes são mais receptivas à equipe de imprensa (o que nem é difícil, já que o lado oposto está matando jornalistas).

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Em entrevista, Wagner Moura disse que o filme alerta para o risco da polarização. Mas isso não é tudo, pois polarização é um fenômeno antigo, seja nos EUA (entre republicanos e democratas), seja no Brasil (basta lembrar da polarização pós-redemocratização, entre PT e PSDB). Já Alex Garland disse que o filme é um alerta sobre o extremismo. Também não é tudo, já que o extremismo de esquerda é muito pequeno na maior parte do mundo. Por isso proponho que o filme é um alerta sobre o extremismo de direita. Esse sim, significativo e que tem tomado algumas das principais potências econômicas. É a partir deste contexto atual que a distopia de Guerra Civil é construída. Como explica Gayet:

Na França, a extrema-direita cresce e ameaça ganhar eleições; na Alemanha, núcleos neonazistas também somam recorde histórico desde o fim da Segunda Guerra. Nos EUA, Trump ressurge com forças renovadas. Não existe polarização, mas sim uma verdadeira campanha de radicalização das pessoas para que encontrem um culpado entre as minorias (pessoas racializadas, LGBTQIA+, minorias religiosas, imigrantes), e elejam políticos da extrema direita.

Sobre a polarização, para Gayet, essa suposta polarização acontece quando pessoas contrárias a esses valores extremistas resolvem fazer oposição. De certo modo, as palavras do historiador são parecidas com as do próprio diretor do filme, quando disse em entrevista que “a crise mundial hoje não é entre esquerda e direita, mas entre extremistas e o centro”.

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Como escreveu Bernardo Mello Franco em sua coluna em O Globo, pouco antes do resultado, “Se Trump vencer e a democracia americana sucumbir, não será por falta de aviso”. Não será mesmo!

Para além dessa discussão, vale ressaltar um aspecto técnico do filme: seu design de som é excelente, com sequências de tiros e bombas sendo intercalados com flashes de câmeras fotográficas, além de muitas hélices de helicópteros. Sem contar uma trilha sonora também bastante interessante. A sequência do confronto em Washington, lá pelo final do filme, é uma longa pancada na orelha. No bom sentido! Podem escrever: Guerra Civil certamente será indicado para alguns dos principais prêmios ligados a som. Confiram na MAX, a partir do dia 22.

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Referências

Se Trump vencer e a democracia americana sucumbir, não será por falta de aviso
https://oglobo.globo.com/blogs/bernardo-mello-franco/coluna/2024/11/se-trump-vencer-e-a-democracia-americana-sucumbir-nao-sera-por-falta-de-aviso.ghtml

Guerra Civil, com Wagner Moura, ganha data de estreia na MAX
https://rollingstone.com.br/cinema/guerra-civil-com-wagner-moura-ganha-data-de-estreia-na-max

“Guerra Civil”: o que o filme com Wagner Moura ensina sobre História e política
https://guiadoestudante.abril.com.br/dica-cultural/guerra-civil-o-que-o-filme-com-wagner-moura-ensina-sobre-historia-e-politica

Civil War (Guerra Civil) — Crítica: reverência ao fotojornalismo
https://www.youtube.com/watch?v=HfbhlG

“O extremismo mata”, diz Alex Garland, diretor do sucesso ‘Guerra Civil’
https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/o-extremismo-mata-diz-alex-garland-diretor-do-sucesso-guerra-civil

GUERRA CIVIL: É isso que nos aguarda?
https://www.youtube.com/watch?v=flHlSwbU21M

Guerra Civil é um filme sobre os perigos da polarização, diz Wagner Moura
https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/282119-guerra-civil-filme-perigos-polarizacao-diz-wagner-moura.htm

Polarização? Antagonismos políticos no Brasil
https://leituraobrigahistoria.com/podcast/polarizacao-antagonismos-politicos-no-brasil/

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