Quem ganhou a eleição municipal de 2024?

Análise das eleições municipais de 2024 destaca vitória de frentes amplas de centro e centro-direita, isolando a extrema-direita e reforçando a busca por governabilidade democrática

Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)

Após o fechamento das urnas no último dia 6 de outubro e a conclusão do primeiro turno das eleições municipais nos mais de 5 mil municípios brasileiros a grande imprensa nacional correu para alardear a vitória da direita por um lado, já outros setores da mesma bradaram um êxito da centro-direita. Essa pequena “divergência” já fala muito por si só de qual foi mesmo o resultado do pleito.

Para fazermos uma análise mais profunda, realista e sem paixões é necessário dizer que o Brasil possui pouquíssimos partidos programáticos e/ou ideológicos em funcionamento, as legendas acabam sendo fluídas na maioria do país, transitando da direita, passando pela esquerda e indo para o centro na grande maioria das vezes, inclusive em função de nuances da política dos estados da federação em que atuam.

Isso está presente na vitória do prefeito Eduardo Paes no Rio de Janeiro no primeiro turno, por exemplo. Aliado do presidente Lula, comandante de uma frente amplíssima que derrotou o candidato do bolsonarismo numa cidade emblemática para o “mito”. Paes é filiado ao PSD de Gilberto Kassab, que já deu entrevistas acenando para apoio a uma possível candidatura a presidente de Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo, para presidente.

Alguns dizem que Paes secundarizou a figura de Lula, do PT, da esquerda e por aí vão. Ora, não foi apenas o prefeito carioca que fez isso (e nem acho que foi na proporção alardeada pela imprensa…), as eleições deste ano foram marcadas por candidatos que, em sua grande maioria, fugiam da pecha de “radicais”, buscavam debater os problemas que afligem mais imediatamente os moradores de cada uma das cidades, debatiam segurança, saúde, educação, esporte e afins, além de lutarem para não serem isolados em um campo determinado, tentado capturar o voto de setores da direita e da esquerda, daí a vitória sim da frente ampla nas cidades em que isso ocorreu, buscando isolar o adversário mais a direita extrema. O pleito municipal reserva desde a redemocratização esta característica, tende a tratar dos problemas concretos, mais próximos a cada um, não reflete de maneira estanque a disputa nacional na grande maioria das cidades. Bolsonaro e o PL tentaram nacionalizar as eleições de 2024, bradaram que elegeriam 1000 prefeitos, depois diminuíram as expectativas e acabaram tendo um resultado menor do que o proposto.

Mesmo outros candidatos filiados ao PL, como o atual prefeito reeleito de Jaboatão dos Guararapes (segunda maior cidade de Pernambuco), Mano Medeiros, e a então candidata na mesma cidade Clarissa Tércio (PP), defensora do 8 de janeiro golpista, sequer deram o ar da graça na visita que o ex-presidente negacionista fez ao município em meio ao pleito, deixando o mesmo apenas na companhia de seu fiel escudeiro e ex-ministro Gilson Machado, candidato pelo PL em Recife, cidade vizinha.

Há uma tentativa em todo o espectro político de fugir da sombra do radicalismo raivoso quando há qualquer possibilidade de isso tirar votos, há os pontos fora da curva e os fieis ao genocida, e também os que transitam no espectro da radicalidade para tentar capturar uma parcela especifica do eleitorado afeita a este discurso, como no caso de Pablo Marçal na cidade de São Paulo, mesmo estas candidaturas tendo votação expressiva, via de regra não chegaram ao segundo turno.

O resultado estático aponta para a vitória do PSD, União Brasil e MDB na maioria das cidades, os 3 partidos fazem parte do governo Lula, ocupam ministérios, assim como estão presentes nos governos estaduais das mais diversas matizes ideológicas. Como discorremos aqui, a vitória dessas legendas precisa ser contextualizada na política local, no desenho de cada estado, podendo estarem associadas ao centro, a direita e até mesmo a esquerda, dependendo da peculiaridade de cada cidade.

É assim no segundo turno em Belo Horizonte, em que Fuad Noman, também filiado ao mesmo PSD de Paes e Kassab, reúne todas as forças do centro, esquerda e de parte da direita para tentar derrotar o candidato do PL, este identificado com o bolsonarismo.

A esquerda e o centro vêm de derrotas nas eleições de 2020, em meio ao governo negacionista e pandemia. O pleito de 2024 marca a retomada destes espectros da política nacional, há sim um inegável avanço do centro, uma retomada da curva de crescimento do PT e do PSB e um resultado mais modesto do PCdoB (que chegou perto das 20 prefeituras eleitas) e do PSOL, partidos mais atingidos pela onda de ultraconservadorismo e anticomunismo que varreu o país nos últimos anos e que, mesmo interrompida pela eleição de Lula em 2022, não se encerrou.

Uma avaliação mais completa das eleições nos ajuda a enfrentar discursos equivocados que tentam desqualificar a importância de frentes ainda mais amplas para isolar a ultradireita que não está morta, disputa em todas as cidades que foram para o segundo o turno, e o faz justamente contra grandes alianças entre a esquerda e o centro que se cristalizaram na maioria destas.

O resultado do segundo turno pode ser mais contaminado pela polarização nacional por se dar nos grandes centros urbanos, em menos cidades e com maior grau de radicalidade e busca de nomes simbólicos que agreguem valor eleitoral, aumentado as chances de vitória, mas as primeiras movimentações dos que se situam no campo do centro, centro-esquerda e da esquerda se deram corretamente na busca da amplitude e pluralidade, expressando compromisso com governos democráticos, amparados por forças que garantam a governabilidade e melhores dias para as cidades.

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