Preconceito, racismo, xenofobia & Eleições 2006

A gente não vê na maioria das profissões uma pessoa negra. Não é tudo. Mas acena reparações para quem construiu este país no lombo.

Do estudo da ONU sobre a violência contra crianças: 70% dos jovens assassinados são negros. Pelos dados de 2000, 16 crianças e adolescentes foram assassinados por dia. Destes, 14 tinham entre 15 e 18 anos.


 



Para Cenise Monte Vicente (Unicef-Brasil), “a violência não tem só idade. Tem cor, raça e território. As vítimas são os negros, os pobres, os moradores de favelas. Se somarmos as 14 mortes por dia, é mais de um Boeing a cada duas semanas, sendo a maioria de negros”.


 


 


Onde? No Brasil. Não rende manchetes dias a fio, mas referenda o dito no Encontro Nacional Olhares da Mulher Negra sobre a Marcha Zumbi +10 (2005): “Exigimos o direito de ter filhos e de vê-los crescer”. Vivemos um genocídio.


 


 


Negros morrem mais. Falamos para corações insensíveis e mentes blindadas à possibilidade de uma cultura de igualdade racial/étnica. Há dias, circulam vieses racistas vinculados às eleições presidenciais.


 


 


Somados ao que ocorreu no primeiro turno, exibem a dimensão de um entrave à democracia. Partidários de Alckmin, do Sudeste e do Sul, cavalgando discurso preconceituoso, gritam: “Alckmin não precisará dos nordestinos”.


 


 


Há propostas contra a unidade nacional: Norte e Nordeste, presidido por Lula; e o Sul, Sudeste e Centro-Oeste, por Alckmin. Há adesivos e panfletos com uma mão com quatro dedos, sob uma tarja com o símbolo de “proibido estacionar”.


 


 


Junte os explosivos ingredientes citados ao que falou o ariano presidente do PFL, Jorge Bornhausen, que não tremeu a cara para expressar seu mais acalentado desejo: acabar com “essa raça” de petistas, ao que disse o governador eleito de São Paulo, José Serra, para diagnosticar que os resultados sofríveis da educação em São Paulo se deviam à gente de fora (leia-se: nordestinos).


 


 


O primeiro cavalheiro, o fundamentalista e neoalckimista Garotinho, desrespeitou as religiões afro e acusou Lula de praticar vodu. A governadora criacionista já aconselhara Alckmin a fugir dos “banhos de pipoca” e a não usar fitas do Bonfim!


 


 


No primeiro turno, a “Veja” circulou com uma negra na capa e a chamada: “Ela pode decidir a eleição”. Deu no “Estadão”: “Eleitor do Nordeste expressa maior tolerância com desvios do que o do Sudeste”, deturpando pesquisa do Ibope e criando uma suposta relação entre cor da pele e rigor moral, pois 18% dos pretos disseram não negar votos a corruptos.


 


 


É mais uma lenda a povoar o consciente e o insconsciente racista, desde Linneu! Visibilizar as práticas racistas internalizadas, naturalizadas e banalizadas consome tempo e energia. É uma peleja.


 


 


Wânia Sant’Anna, em “Para Além da Primeira Página”, à luz dos dados do DataFolha sobre o Estatuto da Igualdade Racial e cotas étnicas – pesquisa combinada à sondagem de intenção de voto em Lula, Alckmin e Heloísa Helena –, afirmou: “O eleitorado, seja qual for a opção atual de voto, não acredita que as cotas para negros nas universidades dividam o país”; 65% era favorável às cotas; 46% sabia do Estatuto; e 9% se dizia bem informado sobre os dois temas!


 


 


Por que o “Jornal Nacional” e a “Folha” mentiram? O primeiro, para adensar a superada tese do seu editor, Ali Kamel: as cotas étnicas rompem a harmonia racial do Brasil.


 


 


A “Folha” quer emplacar as “cotas sociais” contra as cotas étnicas. O presidente Lula não se deixou engabelar: “Quando a gente começa a discussão das cotas, os que são contra, o são por preconceito.


 


 


A gente vai em banco e não vê gerente negro, a gente não vê um dentista, um médico negro. A gente não vê na maioria das profissões uma pessoa negra”. Não é tudo. Mas acena reparações para quem construiu este país no lombo. Meu voto é Lula. De novo.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
Autor