Porque não podemos adiar o impeachment de Bolsonaro

Com a queda de sua popularidade e crescente isolamento político, Bolsonaro se agarra ao Centrão, aos militares e às classes dominantes e já anuncia seus anseios golpistas para o caso de perder as eleições de 2022

Fotomontagem feita com as fotos de: Alan Santos/PR

Desde que humanidade passou a ser dominada pelo fetiche da propriedade privada ela vive envolvida em eternas disputas, na maioria das vezes eivadas de tramas, traições e todos os tipos de artifícios, tendo como principal objetivo assegurar privilégios à minoria que eventualmente detém os meios de produção. Assim foi no escravagismo, feudalismo e agora no capitalismo.

Um fato histórico, emblemático, desse “vale tudo” é o que ocorria no Império Romano, cuja síntese pode ser expressa nas tramas do Senador Lúcio Sérgio Catilina para executar um golpe contra a República Romana e, também, pelo firme combate que recebeu de Marco Túlio Cícero (63 a.C.), no episódio histórico conhecido como as Catilinárias.

As Catilinárias

Neste mesmo espaço do Vermelho, recorri a esse episódio para ilustrar as tramas que culminaram com o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff (PT), nos seguintes termos: “Até quando oh Catilina, abusarás de nossa paciência?… Não vês que tua conspiração foi dominada pelos que a conhecem?”. Com esse libelo o tribuno romano Marco Túlio Cícero iniciava, por volta de 63 a.C., uma sequência de duros discursos – conhecidos como as Catilinárias – denunciando a conspiração golpista tramada pelo Senador Romano Lúcio Sérgio Catilina contra a República Romana.

Como se percebe, as tramas e conspirações não começaram e tampouco terminaram no golpe de 2016 – hoje completamente comprovado. Fazem parte da trajetória humana, desde que haja alguém suficientemente inescrupuloso para se prestar a esse papel e que conte, igualmente, com uma parcela de incautos – reais ou por conveniência – para acreditar em “justiceiros” e até mesmo em políticos fisiológicos, caricatos, travestidos de arautos da “nova política”. Esse foi exatamente o retrato de 2018.

Campanha eleitoral de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018 I Foto: Rafaela Frutuoso/ Diário Regional JF

Guardadas as devidas proporções sociais e temporais, estamos diante da necessidade de recorrermos, novamente, a essência das Catilinárias – enfrentamento às tramas golpistas – para dar uma basta à recorrente pregação golpista de Bolsonaro e seus adeptos.

A revelação de que o General Braga Neto, Ministro da Defesa, vem chantageando o presidente da Câmara, Deputado Artur Lira (PP-AL), sob o argumento que “ou tem voto impresso ou não terá eleição em 2022”, é apenas a última – mas não a única – de uma série de ameaças e provocações que eles têm feito nesse sentido. O presidente já repetiu isso de várias formas e maneiras, inclusive dizendo que “não aceitará qualquer resultado eleitoral que não lhe seja favorável” e um de seus filhos já disse que “para fechar o STF bastaria um Jeep e um cabo velho”.

O que nós estamos esperando? Que eles tomem a iniciativa e sejamos pegos de surpresa com um banho de sangue? É preciso enfrentar esse problema desde já. Adiá-lo para 2022 não é prudente. Além de aumentar a radicalização, ainda permitirá a proliferação de devaneios, que vão da “falta de ambiente mundial para golpes”, o “vigor da Constituição” e o “papel institucional das Forças Armadas”.

Os devaneios

Pelo visto desconhecem as regras elementares da geopolítica e da eterna determinação do império americano de impor suas regras aos demais países, especialmente no continente americano. Não é preciso muito esforço para constatar os reiterados golpes que os EUA promoveram e promovem mundo afora, de variadas formas, para manter sua hegemonia.

A constituição nunca permitiu golpes, todavia eles já foram executados de várias formas e maneiras ao longo de nossa curta história, seja através de quarteladas clássicas (golpe de 1964), dentre tantos outros, e ou golpes legislativos, como o executado em 2016.

Golpe Militar de 1964 I Foto: O Globo

Quanto à crença de que as Forças Armadas são instituições de estado e não de governos, a tese revela ingenuidade e limitação teórica, seja por sequer “lembrarem” dos reiterados golpes patrocinados pelas Forças Armadas contra a democracia brasileira e mundo afora, ou por desconhecerem que o “estado nada mais é do que um instrumento de dominação da classe dominante”, ou seja, de quem detém os meios de produção.

A tática de Bolsonaro para manter uma base mínima é claríssima

À medida que cresce o seu isolamento popular ele radicaliza o discurso para a sua bolha (extrema direita e os “revoltados” com os governos petistas), reitera acusações sem provas à segurança do sistema eleitoral e volta, sem qualquer constrangimento, às suas origens, ou seja, aos braços da direita fisiológica. E a sua tropa de choque rapidamente adapta o discurso para justificar a incoerência do chefe.

A segunda linha de ação está no aliciamento de parcelas das forças de segurança através de cargos (milhares) e benefícios financeiros destinados ao aparato armado do estado (forças armadas e policiais), com as quais ele pretende intimidar os adversários e chantagear os demais “poderes”.

Bolsonaro com militares I Foto: Reprodução

E a terceira linha, cada vez mais difícil de executar pelo seu isolamento, é continuar a política de desmonte do estado tão a gosto de uma elite econômica que ainda sequer aderiu ao capitalismo e sonha, na prática, com um modo de produção escravocrata, no máximo feudal. E é com essa gente que alguns tem ilusão.

É com base nesse tripé que ele pretende se manter até 2022 e, uma vez rejeitado pelas urnas, se entrincheirar para, numa cópia grosseira do que fez Trump nos EUA, colocar as eleições sob suspeição.

Por isso é preciso enfrentar o problema agora. Retardar esse combate é permitir que o inimigo se arme e continue semeando mentiras e intrigas, matérias nas quais eles se especializaram, como demonstraram em 2018 e ao longo do governo.

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