“Loving: uma história de amor”

“Pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre. O anseio pela liberdade eventualmente se manifesta.” (Martin Luther King Jr)

Cena do filme “Loving: uma história de amor” | Foto: divulgação/UPI

O filme “Loving, uma história de amor”, é cativante, intrigante e ameaçador do começo ao fim. O diretor da película Jeff Nichols, aguça nossos sentimentos de repulsa ao racismo apresentando de forma nítida um Estado desumano, racista e impiedoso ao impedir que um casal composto por um homem branco e uma mulher negra, que se amam, possam viver suas vidas.

Nos Estados Unidos do fim dos anos 1950 época em que a trama se desenvolve, casais inter-raciais são proibidos de se relacionarem. Assim, Joel Edgerton e Ruth Negga protagonizam uma história real vivendo o amor de Richard e Mildred que se casam escondidos em Washington onde essas relações eram possíveis. Essas uniões eram vetadas constitucionalmente em alguns Estados, inclusive na Virgínia onde eles viviam. Virgínia é um Estado localizado na região sudeste dos Estados Unidos. Fundado em 1607, Virgínia fora o primeiro assentamento britânico nas Américas.

A segregação racial, consistia em diversas ações de discriminação, onde as pessoas negras ou afrodescendentes eram impedidas de transitar pelos mesmos espaços das pessoas brancas. Essa ação tinha como suporte leis cujo critério é a “raça”, isto é, utilizavam uma concepção ideológica de raça sustentada frequentemente por teorias científicas racistas e preconceitos culturais. Nos estados escravistas do sul e sudeste dos EUA havia leis antimiscigenação, isto é, brancos eram proibidos por lei de se casarem com negros, ainda que “libertos”. Essa lei proibitiva foi institucionalizada em vários estados americanos sendo um caso mais simbólico, a Lei do estado da Virgínia, de 1924, que, em seu item 5, diz:
“Será ilegal, de agora em diante, que qualquer pessoa branca se case com qualquer um que não seja uma pessoa branca ou com uma pessoa com uma mistura de sangue que não seja de branco e índio americano. Para a finalidade dessa lei, o termo ”pessoa branca” deve se ampliar somente àquele que não tenha traço algum de qualquer sangue senão o caucasiano; mas pessoas que tenham 1/16 ou menos de sangue de índio americano e não tenham nenhum outro sangue não caucasiano devem ser definidas como pessoas brancas.” (https://l1nk.dev/eu0Yw).

A institucionalização do racismo pelo estado da Virgínia, promoveu influência em todos os estados segregacionistas dos Estados Unidos da América ampliando a perseguição e a discriminação étnica e se apresentando como um grande problema, notadamente desde a época colonial e escravista do país. Eram concedidos privilégios e direitos legais aos brancos e impedidos aos nativos americanos, afro-americanos, asiático-americanos e aos latinos.

Várias situações de crimes racistas ocorrem no sul dos Estados Unidos como assassinatos cometidos pela própria polícia, tratamentos cruéis pelo Estado.

Porém, sempre houve resistência por parte ela população negra. O Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos tem seu início no momento da Reconstrução pós-Guerra Civil, quando as emendas constitucionais aboliram a escravidão e garantiram direitos de cidadania e voto aos afro-americanos. Esse movimento atingiu seu auge nas décadas de 1950 e 1960, período em que se passa o filme em análise, e teve papel relevante marcado por uma série de lutas para acabar com a segregação racial e garantir direitos iguais.

Significativa a liderança Rosa Parks, que não cedeu lugar no ônibus para uma pessoa branca. Sua ação de resistência, contribuiu para o desenvolvimento de protestos e ações diretas contra a segregação e a discriminação racial. O boicote aos ônibus de Montgomery em 1955-1956, desencadeado pela prisão Parks, destaca também a liderança emergente de Martin Luther King Jr.

Na década de 1960 ocorreram uma série de protestos, marchas e campanhas como a luta dos estudantes universitários na Carolina do Norte contra a segregação em estabelecimentos comerciais. Em 1961 a “Freedom Riders” (Viajantes pela Liberdade), movimento este, que desafiava a segregação racial, realizaram diversas ações com enfrentamento à violência policial, incluindo a nazista organização Ku Klux Klan. Outros movimentos, como a importante Marcha sobre Washington e a Legislação dos Direitos Civis, que reuniu mais de 250.000 pessoas no National Mall, em Washington, D.C., exigindo a igualdade de direitos e oportunidades. Foi durante este evento que Martin Luther King Jr. proferiu seu famoso discurso “I Have a Dream” (Eu tenho um sonho) que se tornou um símbolo da luta contra o racismo e de esperança para o futuro com justiça e igualdade. Os “Panteras Negras” também da década de 60, tiveram papel central na luta contra a violência policial, estudavam o marxismo e além da resistência contra a violência policial realizavam ações sociais e mesmo políticas sociais como a implantação de escolas, hospitais e atendimento gratuito para pessoas negras e latinas.

A história de Richard e Mildred, duas pessoas que se apaixonaram, na pequena cidade de Center Point e tiveram que abdicar de sua cidade e de seu Estado, provocaram mobilização por todo o país. Organizações como Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor – NAACP e a União das Liberdades Cívicas, assumiram a defesa do casal encaminhando-o para a Suprema Corte dos Estados Unidos. O caso ficou conhecido como Estado x Loving fazendo referência ao sobrenome do casal e uma lembrança sobre amor.

O Supremo Tribunal, atestou a legalidade do casamento e obrigou o estado da Virgínia a reconhecer o matrimônio. Essa conquista repercutiu em cerca de 16 estados, que tinham leis que impediam o casamento entre pessoas negras e não negras, revogando leis segregacionistas.

O Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos foi um capítulo crucial na luta pela igualdade e justiça. Ele mostrou o poder da resistência e da ação coletiva para desafiar a opressão e promover mudanças sociais profundas. Embora muitos progressos tenham sido feitos, a luta pela igualdade racial continua relevante hoje, lembrando-nos da importância contínua de defender os direitos civis e combater a discriminação em todas as suas formas. (https://encurtador.com.br/oS8n9).

Donald Trump foi eleito nos Estados Unidos realizando uma campanha com ataque aos imigrantes, com ameaças ao direito de escolha das mulheres, pelo medo e, sobretudo, por manifestações e provocações racistas e nacionalistas. Esse resultado repercutirá, com certeza, em todo o mundo no fortalecimento de figuras reacionárias como Bolsonaro, Meloni, Milei e vários outros nomes desse movimento de extrema direita, que disputam a hegemonia das ideias ultraconservadoras, principalmente nas eleições em seus países. Essa situação, nos abala agudamente e nos coloca ainda mais em alerta para não desistir da luta, ampliando nosso raio de ação na defesa da democracia e dos direitos humanos.

Em nosso país, adotamos novembro como o mês da consciência negra, sendo dia 20 data em que reverenciamos Zumbi dos Palmares – Lider do Quilombo dos Palmares. Essa justa homenagem e reconhecimento à resistência da população negra. tem como fator simbólico o feriado nacional. O Brasil, país com a segunda maior população negra do mundo, atrás somente da Nigéria, apresenta um quadro de profundas desigualdades que atingem essa população, em particular as mulheres, resultado de histórica opressão e sofrimento imposta pelo colonialismo como sistema de escravização, genocídio e de negação da dignidade humana e de perpetuação do racismo estrutural em nossa sociedade.

O filme é profundamente significativo na representação de um sentimento verdadeiro, na tocante beleza da fotografia, na canção “Bound To you” com a voz inconfundível de Christina Aguilera, no enfrentamento ao Estado cruel e racista. Que a história de Mildred e Richard, nos faça continuar a luta antirracista, compreendendo que o amor e a coragem deles contribuiu de forma contundente para a luta pela igualdade e dignidade e que deve continuar viva e forte.

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.” (Nelson Mandela)

“Temos que falar sobre libertar mentes tanto quanto sobre libertar a sociedade” (Angela Davis)

Richard, Mildred e filhos | Foto: reprodução/The New York Times

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