Paulo Freire não basta, comunistas; avancem com a pedagogia histórico-crítica!

A PHC propõe uma educação emancipadora e científica, essencial para a transformação social e alinhada ao compromisso marxista de superação das desigualdades

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A luta pela transformação social exige uma educação que vá além da mera instrução ou treinamento para o mercado. Esse projeto educacional deve proporcionar a compreensão crítica da realidade e favorecer a emancipação humana, especialmente das classes oprimidas, que dependem do conhecimento para romper com as condições de alienação e exploração. Nesse contexto, a Pedagogia Histórico-Crítica (PHC), desenvolvida pelo educador brasileiro Dermeval Saviani, é uma teoria pedagógica que transcende métodos e técnicas e se apresenta como um projeto profundo de formação crítica. Para os comunistas, a defesa e a prática da PHC são fundamentais, pois essa pedagogia oferece uma visão de educação alinhada com o compromisso marxista de transformação e emancipação social.

Primeiro, é essencial entender que a PHC é uma teoria pedagógica, e não um método. Isso significa que sua aplicação exige mais que técnicas ou práticas pontuais; ela demanda uma compreensão teórica profunda dos objetivos e do papel da educação. Fundada em uma perspectiva marxista, a PHC defende que a educação deve oferecer uma visão crítica e científica da realidade, proporcionando a compreensão das contradições sociais e econômicas que condicionam a vida social. Para os comunistas, que buscam a superação das desigualdades e a emancipação das classes trabalhadoras, estudar e compreender a PHC não é apenas útil, mas necessário, pois ela propõe uma formação que questiona a estrutura de dominação do sistema capitalista. Sem essa base teórica, a defesa da educação emancipadora corre o risco de se diluir em práticas pedagógicas alienadas e adaptativas.

Frequentemente, os educadores comunistas adotam Paulo Freire como referência, mas talvez nunca nos perguntemos por que seu pensamento é amplamente aceito pela classe média intelectualizada e promovido em diversos movimentos pós-modernos. A resposta reside no fato de que Freire desenvolveu um método de ensino voltado para a conscientização do oprimido por meio do diálogo e da valorização de sua experiência de vida, sem um aprofundamento nas bases materiais e nas contradições estruturais da sociedade. Esse método, embora transformador em certo nível, encaixa-se bem no discurso de pluralidade das pedagogias pós-modernas, que exaltam a diversidade de experiências e a relativização do saber científico, sem questionar diretamente as condições objetivas que sustentam a estrutura capitalista.

Os movimentos pós-modernos defendem Paulo Freire exatamente por essa característica: ele promove a conscientização, mas dentro de uma abordagem que permite a coexistência com o sistema hegemônico. Sua pedagogia é apreciada por seu potencial de inclusão e de valorização do “eu” dos educandos, em vez de propor uma compreensão mais crítica e objetiva da realidade. Esse enfoque na experiência individual, sem o compromisso com a transformação das condições materiais, agrada à classe média intelectualizada, que encontra em Freire uma educação crítica “aceitável”, pois ela questiona os sintomas do sistema, mas não as raízes. Essa aceitação pós-moderna de Freire, portanto, não representa uma ameaça ao status quo; pelo contrário, é uma maneira de suavizar as críticas à estrutura social, sem abalar suas bases.

A Pedagogia Histórico-Crítica, por outro lado, fundamenta-se no materialismo histórico-dialético e enfatiza a importância do conhecimento científico e sistematizado para a emancipação humana. Diferente da pedagogia freireana, que valoriza o “diálogo”, a PHC entende que a educação deve centrar-se no conhecimento acumulado pela humanidade e transmiti-lo de forma estruturada, pois é isso que permite aos educandos compreenderem as condições objetivas da sociedade e se prepararem para transformá-la. Ao contrário de um método, que pode ser aplicado pontualmente, a PHC é uma teoria marxista completa, que enxerga o papel da educação dentro da luta de classes e se compromete com a superação das desigualdades estruturais.

Para os comunistas, a adoção da Pedagogia Histórico-Crítica como referência é fundamental porque ela não relativiza o papel do conhecimento científico. Diferentemente de uma pedagogia idealista, a PHC enxerga o saber como uma construção social que deve ser oferecida aos alunos de maneira organizada e sistemática, pois é isso que permite uma compreensão ampla da realidade. Ao valorizar o conhecimento científico, a PHC se posiciona contra as abordagens neoliberais e pós-modernas que esvaziam o currículo e promovem uma educação fragmentada e acrítica. Essas abordagens, sob o pretexto de pluralidade e inovação, retiram da escola seu papel central na democratização do saber, adaptando a educação às necessidades do mercado e às demandas da classe dominante.

O ideal freireano de diálogo e de conscientização, embora atraente, se limita ao nível da experiência e da subjetividade dos alunos, deixando de explorar as bases materiais que condicionam essas experiências. A Pedagogia Histórico-Crítica, ao contrário, propõe que a educação deve permitir aos indivíduos o acesso ao conhecimento científico e histórico, que possibilita uma visão objetiva da realidade e das contradições que estruturam a sociedade. Esse conhecimento estruturado e científico, que vai além da conscientização, é o que permite aos sujeitos entenderem sua posição na estrutura social e lutar pela superação das condições que perpetuam a desigualdade.

Ser comunista e defender uma pedagogia idealista e limitada à subjetividade é, portanto, um paradoxo. A formação revolucionária exige uma compreensão clara e objetiva das contradições sociais e das condições materiais que sustentam as relações de dominação. Para os comunistas, a PHC oferece essa base teórica e prática, pois defende uma educação comprometida com a ciência, com o saber historicamente acumulado e com a crítica das relações de poder. A partir desse conhecimento, os educandos podem superar a visão fragmentada imposta pelo sistema e se organizar conscientemente para a transformação social.

Assim, a Pedagogia Histórico-Crítica é a pedagogia mais alinhada ao comunismo, pois ela não apenas educa, mas emancipa e organiza o indivíduo para uma ação transformadora e coletiva. É uma teoria pedagógica que entende a educação como um processo intencional e politizado, que deve capacitar a classe trabalhadora para a compreensão científica e crítica do mundo. Ela vai além da conscientização freireana ao se comprometer com a estrutura material do saber, sem abrir concessões ao relativismo e à superficialidade.

Portanto, para os comunistas, não basta ser freireano; é preciso avançar para a Pedagogia Histórico-Crítica. É essa teoria que permitirá uma educação verdadeiramente comunista, que não apenas liberta, mas oferece as ferramentas concretas para a superação da sociedade de classes. Em uma época em que as pedagogias neoliberais tentam neutralizar a função transformadora da educação, a PHC reafirma que a luta pelo conhecimento científico e crítico é a única forma de fazer da educação um verdadeiro instrumento de transformação revolucionária.

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