Aos que foram e aos que ficam: precisamos ser humanos!
“Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados” (Herzog)
Publicado 25/10/2024 16:41

Existem dias e semanas que são como um ralo de existência física, dragando os melhores, ontem e hoje. Essa foi uma delas. Historicamente ou no exato presente, bálsamos de humanidade e humanismo se foram, como que sugados da presença material, mas ainda assim, imortalizados em suas ações e suas obras.
Hoje, nesse dia 25 de outubro, meu aniversário, o ralo da podridão e do horror da Ditadura Militar, dragava o corpo magro de Vladimir Herzog. Judeu, sobrevivente da frieza gutural do nazismo alemão, que dilacerou a sua terra de nascença, a Iugoslávia, morreu no calor húmido e mofado dessa realidade latina, que sempre tenta enterrar a democracia em covas rasas e caiadas.
Hoje, Israel que insiste em falar por todos os judeus – sem sucesso, ainda bem -, continua matando e chacinando famílias inteiras em Gaza, em campos de refugiados, os queimando vivos, ou no Líbano, com bombas de precisão que transformam edifícios em pó.
“Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados”, disse uma vez Herzog.
Que Israel enquanto governo, sistema e ideologia sionista já nasceu perdendo essa capacidade e perdendo sua humanidade, quem já tentou se aprofundar minimamente na história dessa nação e o que ocorre desde então com a Palestina, sabe disso muito bem.
Sobrou, ano após ano, uma casca oca, que tenta emular um país, mas é só reflexo no espelho dos algozes que um dia fizeram mal ao seu povo, também. Uma espécie de Síndrome de Estocolmo, misturada com uma fé inabalável na meritocracia do horror, vendida por coachs da morte e do genocídio como Hitler e Netanyahu.
Falando em fé, ontem se foi Gustavo Gutierrez, aos 96 anos. O peruano pai da Teologia da Libertação, fazia um contraponto ao cristianismo histórico, de defesa dos poderosos, para trazê-lo ao que teoricamente seria sua origem: a defesa da vida e da dignidade dos pobres. E isso assusta os poderosos e seus serviçais.
Por isso, aqui, durante a Ditadura Militar, tanta gente ligada ao pensamento da Teologia da Libertação foi perseguida, presa, torturada, assassinada ou expulsa do país, tanto pelas forças da repressão, como pela própria Igreja. De Paulo Freire a Dom Helder Câmara, Frei Tito e Frei Beto. Hoje, o padre Júlio Lancellotti é esse bálsamo de amor, caridade, solidariedade que é atacado pelas cascas ocas, que emulam ser gente e insistem que fazem isso por humanidade.
Também, essa semana se foi o poeta e compositor Antônio Cícero. Irmão da cantora Marina Lima é letrista de grandes sucessos dela, como “Fullgás” e “À Francesa”, além da parceria com outros artistas como Frejat. Para supresa de amigos e pessoas próximas, Cícero foi até a Suíça para praticar eutanásia.
Sofria de Alzheimer e em carta endereçada aos amigos e aos que amava, disse que tomava essa decisão porque, diante do que ainda lhe restava de consciência, não queria ficar impossibilitado de fazer o que mais gostava: ler e estar com esses amigos.
Dragou-se, ele mesmo, como que apertando a descarga da vida, esvaindo sua existência física. Um deus-universo criador do buraco negro que lhe sugaria e o tornaria a antimatéria. Imortal? Ele já era, através de sua obra e da cadeira que ocupava na Academia Brasileira de Letras.
Em 2012 escreveu em “O fim da vida”: “e não há, depois da morte, mais nada. Eis o que torna esta vida sagrada. Ela é tudo e o resto, nada.” Será que ele já entendia que um dia poderia sair “à francesa” desse mundo aqui?
Em 1996, escreveu: “Orelha, ouvido, labirinto: perdida em mim a voz do outro ecoa. Minto: perversamente sou-a”. Aqui entendo que ele fala sobre emular alguém ou algo. Como num prenúncio da doença neurológica, mas, tomo a liberdade de dizer que podemos também transpor seu significado e dizer ser prenúncio da doença e do horror daqueles que deixaram de se importar com o outro, de se indignar com as atrocidades cometidas aos outros.
Seguimos assim, perdendo um tanto de nossa humanidade. Ainda bem que temos ainda a poesia e a memória das ações daqueles que se importaram um dia.
Como disse Antônio Cícero e cantou Marina Lima: “Você me abre seus braços / E a gente faz um país”.