A ciência brasileira em ebulição
“O Cenário de “terra arrasada” mudou. Como bem afirmou a ministra Luciana Santos, logo em sua posse à frente do MCTI, “a ciência voltou”.
Publicado 22/07/2024 16:00 | Editado 22/07/2024 15:22

Após gélidos seis anos de governos Temer e Bolsonaro, a ciência nacional volta a ser aquecida. Toda essa efervescência é prova da grandiosidade de nossa nação e resiliência de nossa comunidade acadêmica e científica que, mesmo após tantos ataques, resistiram.
Com enorme plasticidade, a ciência brasileira literalmente suportou os incêndios patrocinados pelo governo Bolsonaro para desabrochar agora ainda mais florescente. Foram duros os golpes desferidos por uma campanha sistemática de negacionismo científico, apologia à desinformação e desinvestimentos na ciência que perdurou por mais de quatro anos.
Para se ter uma ideia do tratamento dado à ciência brasileira pelo governo passado, o orçamento aprovado para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em 2021 foi o menor das últimas duas décadas. Isso sem contar o financiamento da Capes e do CNPq que, juntas, perderam quase 50% dos seus orçamentos para bolsas de formação no período, quando comparado aos últimos quatro anos. E para além dos cortes orçamentários, houve uma agenda permanente para se minar o moral da ciência, como pontuou recentemente o professor Renato Janine Ribeiro, em artigo publicado na revista Nature. Inevitavelmente, a comunidade científica brasileira andava desanimada.
Mas esse cenário de “terra arrasada” mudou. Como bem afirmou a ministra Luciana Santos, logo em sua posse à frente do MCTI, “a ciência voltou”. A bem da verdade, a ciência nunca foi embora. Esteve sempre presente, mesmo nos momentos mais dramáticos vividos pelo povo em plena pandemia, com a campanha contra a vacina. Mas agora ela está em ebulição.
Um dos exemplos que demonstram essa retomada do interesse pela ciência no Brasil foi a realização da maior Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada entre os dias 7 e 13 deste mês em Belém, mobilizando mais de 27 mil inscritos e um público estimado de mais de 50 mil participantes circulando nas atividades científicas e culturais. É importante lembrar que durante o governo Bolsonaro esse que é o maior evento científico da América Latina foi enormemente desprestigiado, com os órgãos oficiais ligados à C,T&I participando timidamente. Hoje esse cenário mudou. A participação do MCTI e todas as suas unidades vinculadas destaca-se na programação do evento, com enorme protagonismo.
Mas o fato mais notável dessa “volta” em grande estilo da ciência no Brasil é, sem dúvida alguma, a retomada da 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CNCTI) após 14 anos desde sua última edição.
Esta 5ª CNCTI ocorre, portanto, em um momento de grande entusiasmo. Demonstração inequívoca desta grande efervescência da comunidade acadêmica e científica foram as mais de 200 etapas preparatórias (entre reuniões temáticas, conferências livres, conferências municipais, estaduais e regionais). Todos os eventos, que foram presenciais e virtuais, somaram mais de 70 mil pessoas, segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Algo inédito até então em nosso país.
Para etapa final (30 e 31 de julho, e 1º de agosto), a procura pelas inscrições também foi reveladora sobre este novo momento em que vivemos de exaltação da ciência brasileira. As vagas do último lote remanescente esgotaram em apenas 15 minutos. 1800 pessoas poderão prestigiar ao vivo, em Brasília (DF), os 50 debates e sete plenárias sobre os quatro eixos estruturantes propostos. Milhares de outras pessoas acompanharão o evento de maneira online.
A comunidade científica brasileira deve celebrar essa “volta da ciência”. Mas ao mesmo tempo precisa ter a audácia de apontar para uma nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) proposta para os próximos anos que dê lugar de destaque à democracia brasileira. Ou seja, para além dos quatro eixos estratégicos (Recuperação, expansão e consolidação do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação; Reindustrialização em novas bases e apoio à inovação nas empresas; Ciência, Tecnologia e Inovação para programas e projetos estratégicos nacionais; e, Ciência, Tecnologia e Inovação para o desenvolvimento social), a democracia deve ser um tema transversal a todos esses eixos, com valor fundamental para se evitar o retorno ao obscurantismo, ao golpismo e ao fascismo.