Vice da Bolívia exalta continuidade da revolução na América Latina
“Jalala!” é uma saudação indígena. É uma palavra aprendida (e repetida) por aqueles que participam do 20º Foro de São Paulo, em La Paz. Após quatro dias de atividades, aconteceu, nesta quinta-feira (28), a abertura oficial do evento, que contou com a presença do vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera. No auditório do Campo Ferial, centenas de pessoas fizeram ecoar “jalala” à integração e aos governos progressistas da América Latina.
Por Théa Rodrigues, de La Paz para o Portal Vermelho
Publicado 29/08/2014 04:32

As delegações de mais de 50 países escutaram atentamente as palavras de Linera, que demarcou a temática "Derrotar a pobreza e a contraofensiva imperialista, conquistar o Bem Viver, o desenvolvimento e a integração em Nossa América”, que rege o encontro.
O vice-presidente boliviano lembrou que, quando nasceu o Fórum de São Paulo, há 24 anos, se vivia a derrubada da União Soviética. "Se impunha e consolidava um império unipolar, quando Ronald Reagan governou os Estados Unidos e Margaret Thatcher era primeira-ministra da Inglaterra e quando a expansão do neoliberalismo começou”, disse.
Saiba mais: Confira a cobertura completa do Foro de São Paulo
“Hoje estamos assistindo a uma lenta, mas irreversível, decadência da hegemonia norte-americana”, pontuou. Segundo ele, falar de neoliberalismo na América Latina é falar de um passado distante da realidade da atual conjuntura.
O modelo neoliberal foi extirpado de muitos dos países latino-americanos e "enviado à lixeira da história, de onde nunca deveria ter saído", afirmou ele sob os aplausos entusiasmando da plateia.
Mesmo assim, Linera observou que “os Estados Unidos continuam dominando, mas precisam utilizar a imposição da força militar e de um intervencionismo brutal”. Segundo ele, pouco a pouco, a China e a Europa tiram a liderança econômica estadunidense, mas “ainda não estamos falando de um mundo multipolar”.
Tarefas para fazer avançar o processo revolucionário
Álvaro García Linera, que também preside a Assembleia Nacional da Bolívia, mencionou cinco tarefas "para preservar e aprofundar o processo revolucionário não só na América Latina, mas no mundo".
Segundo ele, é preciso "defender e ampliar as conquistas" pelos Estados progressistas até o momento. "É dever de todo revolucionário, de cada pessoa que pensa de seu país, nos pobres, nos humildes e na unidade latino-americana, defender o avanço até aqui. Seria terrível para os processos de emancipação revolucionária que acontecesse um retrocesso", disse.
A preocupação de Linera com a revolução na América Latina, não é recente. Remonta ao tempo em que foi filiado ao grupo marxista-katarista dos “Ayllus Rosados” (comunidades indígenas de orientação comunista). Posteriormente, ele participou como ideólogo da organização do Exército Guerrilheiro Túpac Katari (EGTK). O atual vice-presidente é matemático, sociólogo, estudioso dos movimentos sociais e da “esquerda indígena” boliviana.

Público acompanha abertura do 20º Foro de São Paulo. Foto: Théa Rodrigues.
"Preparar-se para ser governo não é só a capacidade de contestar e resistir, mas de ter a capacidade de propor e gerir", complementou.
A terceira tarefa é "reforçar as tendências comunitárias e socialistas da experiência cotidiana. Estamos em um período de transição chamado pós-neoliberalismo", que pode se tornar um capitalismo mais humano ou criar uma sociedade nitidamente pós-capitalista.

“Mostraram-nos dois caminhos: o do socialismo e do capitalismo. No capitalismo, o que importa é o capital e, hoje em dia, o que vivemos é a ditadura do capital. Já o socialismo quer garantir as necessidades cada vez mais presentes para o ser humano, para o socialismo o mais importante é ser humano”, disse.
"Os revolucionários estão a cavalgar o capitalismo na transformação e na negação, rumo a uma sociedade socialista e comunitária", acrescentou o vice-presidente, que afirmou ainda que se deve ampliar a participação da sociedade na tomada de decisões e também fazer prevalecer a necessidade ante a ganância em termos de produção.
De acordo com a lista de Linera, a quarta tarefa é a "capacidade de remontar as tensões que surgem a partir de um tipo de revolução emergente do processo democrático", aonde se enfrenta a necessidade da construção de hegemonia, entendida como o caminho para derrotar o inimigo e depois integrar o novo plano, mas não de forma desarticulada.
Por fim, a quinta tarefa "é avançar em processos de integração técnica produtiva", que envolve a unidade do continente "nenhuma revolução ou país da América Latina vai sair só. Ou saímos todos juntos ou não sai ninguém", disse ele.
"Há vontade integradora: reunimos-nos os presidentes, reunimos-nos os assembleístas, reúnem-se habitualmente os sindicatos e há vontade de colaboração, mas isso não basta", expressou.
Democracia latino-americana
"A América Latina tem demonstrado que a democracia é o meio e o espaço cultural da própria revolução, o que na Bolívia chamamos de revolução democrática", falou o vice-presidente. Em seguida, García Linera agregou que nos países latino-americanos onde a revolução triunfou se deu uma transformação e um enriquecimento da democracia entendidos como "participação, radicalização e como comunidade, ao que aqui nós damos o nome de democracia comunitária".
Para o sociólogo, "as vitórias das revoluções de esquerda da América Latina são o resultado do processo de mobilização nos âmbitos cultural-ideológico e sócio-organizacional”. Segundo ele, no caso da Bolívia, não é possível entender a vitória do presidente Evo sem as lutas, sem a Guerra da Água, sem a guerra coca e sem a Guerra do Gás, que deu origem ao governo dos movimentos sociais.
"As pessoas estão dispostas a lutar e dar suas vidas, porque elas sabem e acreditam que há uma esperança para acabar com o seu sofrimento", disse Linera. Ele acrescentou que o povo converteu "a ideia em força eleitoral, a força eleitoral em força estatal e força estatal em força econômica”.
Mecanismos
Durante a sua exposição no 20º Foro de SP, Álvaro García Linera não poderia deixar de citar a importâncias dos mecanismos de integração regional como um conquista latino-americana. “Um renovado internacionalismo e a expectativa de integração regional se reflete na formação da Alba, Unasul e Celac”, citou.
"Estas são a construções inéditas no nosso continente, porque servem para construir a nossa unidade. Antes se formavam estruturas continentais, mas que eram dirigidas e financiadas pelos Estados Unidos”, disse García Linera.
"A Celac é a auto-reflexão da América Latina para a necessidade de unificar as suas forças para construir um Estado continental plurinacional com estruturas financeiras e produtivas que permitam passar para unificação e integração econômica, material e tecnológica, este é o grande desafio que os latino-americanos têm no século 21", disse ele.
Atividades do Foro
O 20º Foro de São Paulo termina nesta sexta-feira (29). Após cinco dias de debates, o grupo de trabalho e delegados dos partidos políticos de esquerda da América Latina devem se reunir durante todo o dia para elaborar o texto da declaração final. O Portal Vermelho acompanhou todos os dias do evento e trouxe uma cobertura das atividades mais importantes da semana.