Crateús programa centenário

Com importância histórica no Estado, o Município de Crateús entra 2011 no ano de seus 100 anos de criação

Crateús

Este é o ano do centenário de Crateús. No dia 15 de novembro completa 100 anos da sua fundação, que ocorreu em 11 de novembro de 1911. Para marcar a data, entidades do Município e os próprios filhos da terra discutem ações e a programação alusiva à data. A Sociedade Amigos da Biblioteca Norberto Ferreira Filho (Sabi), elaborou um projeto contemplando várias ações em torno dos 100 anos. Apresentou na última sexta-feira ao secretário municipal de Educação, Mauro Soares. "O nosso intuito é comemorarmos os 100 anos de nossa cidade realizando atividades artísticas e culturais que resgatem a sua história, bem como a sua importância para a região e o Estado", explica Karla Gomes, presidente da Sabi.

A proposta consta de realização de uma Mostra nas escolas públicas municipais. Nominada de "100 anos de história", propõe ofertar aos participantes oficinas de vídeo e fotografia, contação de história, teatro e literatura de cordel. Ao final das oficinas, será montada uma mostra de todos os trabalhos produzidos em cada oficina, com exposição de fotografias, exibição dos vídeos, apresentações teatrais, contação de história e lançamento dos cordéis. "Assim os alunos terão acesso à história da cidade, contada de uma forma descontraída e informativa", ressalta Karla.

Outra proposta destacada no projeto da ONG é a realização do espetáculo "Crateús em 5 atos", que levará às praças da cidade a sua história, disponível para todos os públicos assistirem. Este item contempla ainda a valorização dos artistas da terra. "Com esta peça teatral queremos levar à praça nossa história encenada e dirigida por artistas crateuenses", propõe a presidente da entidade.

Para Mauro Soares, secretário de Educação, o projeto é bem-vindo. Será analisado e poderá se unir a uma programação que a gestão municipal está definindo. "As idéias e atividades destacadas na proposta da Sabi são muito boas e estamos analisando", diz. Segundo ele, a Prefeitura irá formar ainda neste mês uma comissão para definir a programação comemorativa ao centenário. "A comissão será composta por representantes da sociedade civil para ser abrangente, queremos envolver todos na comemoração de tão importante data", pontua.

Independente, porém, de qualquer outra programação, Mauro Soares informa que uma já está definida e fará parte do calendário escolar deste ano: a inclusão do tema em todas as atividades curriculares da rede municipal de ensino. Segundo ele, os coordenadores pedagógicos já estão mobilizados neste sentido e no desenvolver da Semana Pedagógica, que ocorrerá neste mês, muitas atividades serão colocadas no calendário escolar. "Neste nao, toda atividade na rede municipal terá este tema", garante o secretário.

O chefe do Departamento de Cultura do Município, Silvio Werta, garante que as comemorações realizadas estarão à altura da data e da cidade. "Atividades culturais, exposições, cordéis, espetáculos teatrais, enfim, montaremos uma programação intensa para marcar este grande acontecimento da nossa cidade", diz. Para ele, o segundo semestre do ano será bem movimentado em torno do centenário. "Iremos, inclusive, articular junto aos Correios o lançamento de um selo comemorativo", ressalta.

Fatos históricos

Para Elias de França, presidente da Academia de Letras de Crateús, há o pensamento de lançar uma publicação destacando os fatos históricos da cidade. "A memória de uma cidade é algo muito importante. Nós somos seres históricos e na sucessão das gerações vamos aprendendo e, além disso, é justo e importante contar a história para as novas gerações", analisa. Enumera fatos históricos ocorridos nestes 100 anos, como a passagem da Coluna Prestes na cidade, a passagem da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em 1953, que ficou conhecida como "A prisão da santa", e a consolidação de Crateús como cidade pólo da região. "É um momento oportuno para relembrar tantos fatos históricos importantes", diz o escritor.

Em Crateús, a história registra o combate que ficou conhecido pela população como "A Passagem dos Revoltosos", que, acirrado, culminou na morte do tenente Tarquínio e do cabo Antônio Cabeleira, dois dos componentes do movimento armado. Os revoltosos, comandados pelo líder revolucionário Luís Carlos Prestes, passaram pela cidade de Crateús em 15 de janeiro de 1926, chefiados pelo capitão João Alberto.

A sepultura dos dois revoltosos que morreram durante o tiroteio fica localizada na comunidade de Boa Vista, situada nas imediações da cidade. "Para mim, os revoltosos e a prisão da santa foram os fatos mais marcantes destes 100 anos de Crateús", destaca o historiador Norberto Ferreira Filho, o conhecido Ferreirinha.

A classe empresarial da cidade também considera oportuna a realização de uma grande programação por parte da gestão municipal, em parceria com as entidades. "É uma data muito importante e que merece uma grande comemoração, tanto o comércio como as autoridades devem se movimentar em torno dela", acredita o presidente da Associação Comercial e Industrial de Crateús (Acic), Valderez Gonçalves. Lembra que a Acic também comemora uma data importante neste ano: os seus 90 anos de fundação.

Historiador é memória viva da cidade

Aos 92 anos, Norberto Ferreira Filho é referência na vida de Crateús. Autor de cinco livros, viveu momentos relevantes para a formação da cidade hoje e ainda tem muitas aventuras para contar. Mesmo acometido por Mal de Parkinson, seu Ferreirinha conta várias lembranças marcantes do cotidiano da cidade

Não há como falar da história de Crateús e não mencionar Norberto Ferreira Filho, o conhecido Ferreirinha. Com cinco livros publicados, praticamente todos tratando sobre a história de Crateús, Ferreirinha é um apaixonado por sua cidade e sua história. Dedicou boa parte da sua vida e de suas atividades à região, como historiador, comerciante ou militante partidário. Aos 92 anos, ainda lembra de muitos fatos ocorridos na cidade e na região. Mesmo dizendo que a memória está falha, é personalidade viva da história de Crateús. "Estou muito esquecido, não lembro mais como antes, mas posso contar alguns fatos destes 100 anos", diz Ferreirinha.

A chegada da estrada de ferro, a espera pelo trem na estação, as grandes enchentes e secas, os seus livros, a passagem da Coluna Prestes por Crateús, os sofrimentos decorrentes da Ditadura Militar que ele e sua família passaram, o episódio conhecido como "prisão da santa", a Igreja Popular de dom Antônio Fragoso e o dinamismo e empreendedorismo do atual bispo dom Jacinto de Brito são acontecimentos que ele relembra com serenidade, considerando como importantes e fundamentais na história de Crateús. Conversa, de forma tranquila e sem mágoas, até sobre os momentos tristes de sua prisão à época da Ditadura Militar e pouco tempo depois, do longo exílio de seu filho João de Paula Monteiro. Em muitos momentos a memória realmente o trai, em outro é exata.

Sobre a "Passagem dos Revoltosos" lembra do temor da população e da data exata. "Foi em 1926 e a população teve muito medo. Muitos foram para as fazendas no interior, outros trancaram as portas e ficavam olhando pelas frestas das janelas. Aqui foi o único lugar do País que houve mortes", relembra, e continua analisando a história do País naquele período, citando o envolvimento e luta de Luís Carlos Prestes.

Prisão da santa

Ferreirinha relembra também o pitoresco episódio da prisão da santa, que aconteceu na cidade. Conta que a imagem de Nossa Senhora de Fátima peregrinava pelas paróquias, por volta de 1953. Em Crateús, as autoridades desejavam que a santa ficasse por mais dias, pois consideravam a cidade já grande e muitas pessoas queriam ver a imagem. "Como o encarregado não aceitou a proposta, as autoridades não permitiram que a imagem partisse da cidade e daí surgiu o famoso fato", diz o historiador. Para ele, o episódio foi algo simples. "Fizeram muito alarde na época, as autoridades, os homens de bem, o juiz só queriam que os fiéis vissem a santa", pontua. Outra lembrança que tem, com olhos marejados era quando os jovens esperavam o trem na estação.

Fonte: Diário do Nordeste