Jurados ignoram feitos de Vini Jr em decisão do melhor do mundo

Ao consagrar o espanhol Rodri como melhor jogador do mundo na temporada 2023-24, europeus deixam claro que Vini perde o prêmio de melhor jogador do mundo pela luta racial

Foto: Reprodução

A revista France Football expôs sérios problemas de credibilidade ao eleger, nesta segunda (28), o meia espanhol Rodri, (28 anos), do Manchester City, como o melhor jogador do mundo na temporada 2023/24, preterindo o atacante brasileiro Vini Jr, do Real Madrid.

Apontado como favorito à conquista do prêmio Bola de Ouro, o atacante Vini Jr. não compareceu à cerimônia por ordem do seu clube. De acordo com a imprensa espanhola, o Real Madrid soube pelos bastidores que o brasileiro não seria o coroado, e nenhum indicado do clube esteve presente no Théâtre du Châtelet, em Paris.

A decisão dos jurados colocou em dúvida os critérios escolhidos pela revista francesa e gerou uma série de críticas do mundo da bola e da política. 

Aqueles ligados ao futebol alegam que a temporada vivida pelo atacante de São Gonçalo é bem mais decisiva e com melhores números do que o desempenho do meia espanhol. De agosto de 2023 à maio de 2024, período que compreende a temporada europeia, 

O meio-campista balançou a rede menos vezes e teve menor participação em gols que o brasileiro, mas deu mais assistências. Vini marcou 26 gols e deu dez assistências, enquanto Rodri anotou 12 e deu 13 passes para gols. 

O brasileiro foi decisivo em todos os três campeonatos vencidos pelos merengues na temporada de 2023/24. No campeonato Espanhol (LaLiga), Vini liderou o Real Madrid na vitória de 4 a 0 contra o então líder Girona, partida crucial para a “remontada” (virada em espanhol) da equipe do técnico italiano Carlo Ancelotti. O atacante participou de todos os gols na goleada – com gols e assistências.

Na Supercopa da Espanha, Vini marcou três dos quatro gols marcados na vitória por 4 a 1 contra o arquirrival Barcelona, em partida que deu o título ao time da capital. Naquele dia, o atacante se tornou o primeiro brasileiro da história a fazer três gols com a camisa merengue em cima do Barcelona.

Na Champions League, campeonato continental da Europa, e considerado o torneio interclubes mais difícil do mundo, Vini Jr só não fez chover, o que deu ao brasileiro o prêmio de melhor jogador do torneio. 

Nas quartas de final, enfrentando o Rodri e o Manchester City, o atacante não balançou as redes, mas foi essencial para o empate. Vini contribuiu com duas assistências – para o segundo e terceiro gol da equipe.

Já na semifinal, contra o Bayern de Munique, o atacante foi mais uma vez decisivo. Logo na primeira partida, na Baviera, Vini recebeu um lindo e icônico passe de Kross e não tremeu na frente de Manuel Neuer, considerado um dos melhores goleiros da história do futebol mundial. 

Logo após o gol, os merengues murcharam, e o Bayern chegou a virar a partida. No segundo tempo, no entanto, Vini Jr empatou o jogo de pênalti.

A decisão da Champions pode ser considerada o grande momento de Vinicius na temporada 2023/24. e consagrou o 15º troféu da história do Real Madrid. O companheiro de time e concorrente na Bola de Ouro Carvajal abriu o placar de cabeça, no segundo tempo.

A vitória já se encaminhava para o clube merengue, mas Vini Jr. deixaria o resultado ainda mais maiúsculo para o Real. Belligham roubou a bola no meio, encontrou Vinicius livre na entrada da área. Batida no alto para tirar o goleiro e calar os torcedores alemães em Wembley, um dos templos do futebol.

A temporada de Rodri teve mais títulos, uma vez que o espanhol venceu a Eurocopa pela seleção de seu país e outros três títulos pelo Manchester City (mundial da Fifa, campeonato Inglês e Supercopa da Uefa). No entanto, Rodri não foi o único protagonista nos dois elencos.

Pela seleção espanhola, Dani Olmo, Nico Williams e a jovem promessa Lamine Yamal foram substancialmente mais decisivos e, enquanto no hipertrofiado Manchester City, Rodri compartilha o protagonismo com uma série de outros craques que só os petrodólares do mundo árabe podem conseguir.

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Racismo europeu contamina decisão do Melhor do Mundo

Superada questão técnica, resta a pergunta: por quê ainda que muito mais decisivo, Vini Jr. ficou sem o troféu? Vinicius Junior perdeu o prêmio de melhor jogador do mundo pela luta racial?

Desde quando saiu do Flamengo, em maio de 2017, Vini conviveu com críticas que ultrapassaram os limites da razoabilidade. Ainda um garoto, aos 17 anos, o atacante virou meme ao estilo chacota logo nos primeiros meses de Real Madrid Castilla, clube filial usado para revelar e desenvolver jovens promessas.

Durante esses primeiros anos de Espanha, enquanto se adaptava ao futebol europeu, muito mais físico e tático, o brasileiro foi alvo de memes que o desqualificavam como jogador. 

Já promovido ao elenco principal, em 2021 e 2022 apareceram os dois primeiros casos explícitos de racismo, que na Espanha é classificado como um “crime de ódio” (o código penal do país diz que aqueles que incentivam, promovem ou incitam publicamente o ódio contra um indivíduo ou grupo devido à sua raça podem ser condenados a uma pena de prisão de até quatro anos, além de multa).

No dia 24 de outubro de 2021, ao ser substituído aos 87 minutos do segundo tempo no Camp Nou, estádio do maior rival, Vini caminhou pela lateral do gramado para chegar ao banco de reservas e sofreu ofensas raciais por parte de um torcedor. 

Cinco meses depois, nas Ilhas Baleares, em Palma, sons imitando macaco foram ecoados pela torcida do Mallorca enquanto Vini contestava uma decisão do árbitro.

Ainda em 2022, Vini recebeu o primeiro ataque racista fora das quatro linhas. O programa de TV espanhol noturno “El Chiringuito” causou perplexidade quando o colaborador Pedro Bravo – um conhecido empresário espanhol – disse que Vinicius deveria parar de dançar quando comemora um gol. 

“Se você quiser sambar, vá para o Sambódromo no Brasil”, disse Bravo. “Aqui, você tem que respeitar seus colegas jogadores. Parem de fazer papel de macaco”, completou.

Os comentários causaram indignação, especialmente no Brasil. Bravo pediu desculpas, dizendo que suas observações haviam sido mal interpretadas, e Vinicius respondeu nas mídias sociais.

“Enquanto a cor da sua pele for mais importante do que o brilho dos seus olhos, haverá guerra”, disse ele. “Tenho essa frase tatuada em meu corpo. Tenho esse pensamento em minha cabeça, permanentemente. Essa é a atitude e a filosofia que tento colocar em prática em minha vida”.

“Dizem que a felicidade incomoda as pessoas. A felicidade de um brasileiro negro, vitorioso na Europa, incomoda muito mais. Mas minha vontade de vencer, meu sorriso e o brilho em meus olhos são muito maiores do que isso. Fui vítima de xenofobia e racismo. Mas nada disso começou ontem… As danças celebram a diversidade cultural. Aceitem-na, respeitem-na. Eu não vou parar”.

Dali para frente, ladeira abaixo. Dezenas de casos de racismo foram registrados pelas autoridades espanholas, pela imprensa e pelo próprio atleta.

No mais escandaloso deles, em janeiro de 2023, antes das quartas de final da Copa do Rei entre Real e Atlético de Madrid, no Santiago Bernabeu, uma efígie de Vinicius – um manequim vestindo a camisa do jogador – foi pendurada pelo pescoço em uma ponte perto do campo de treinamento do Real em Valdebebas, com uma faixa dizendo “Madrid odeia o Real”. 

Quatro membros da “Frente Atletico” (grupo de torcedores radicais afiliados ao clube) foram presos, depois que registros de telefones celulares os colocaram na cena do crime. O juiz investigador chamou o fato de um “claro ato de humilhação racista”. Os promotores estão buscando sentenças de 4 anos de prisão, e o julgamento ocorrerá no final deste ano.

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Tentativa de “domesticação”

Com a consolidação dos ataques racistas ao jogador brasileiro, Vini passou a conviver com outro tipo de violência: a ridicularização da sua luta antiracista, considerada “mimimi” pela sociedade europeia.

Foram inúmeras as vezes em que jornalistas esportivos e ex-jogadores, ídolos do passado que viraram comentaristas, passaram a fazer campanha e pressão para que Vinicius deixasse de ser reativo aos casos de racismo. 

A tentativa de “domesticá-lo”, tal como os antepassados fizeram nas colônias americanas, passou a ser a tônica das análises sobre o futebol de Vini.

O montenegrino Predrag Mijatović, ídolo do Real Madrid, teve espaço na imprensa esportiva para criticar a comemoração de Vini contra o Real Sociedad, em setembro deste ano. Vinícius Júnior celebrou com o dedo na boca pedindo silêncio à torcida rival. 

“Ele está jogando pedras no próprio telhado. Estamos muito contentes com o gol dele, mas ficamos muito decepcionados com a comemoração. Por que ele precisa fazer isso?”, questionou o ídolo madridista dos anos 90.

Campeão mundial e da Champions League em 1998, o iugoslavo Predrag Mijatovic, não era nenhum exemplo de estabilidade emocional e foi muito criticado durante a carreira pelo temperamento explosivo. Ainda assim, do alto do seu histórico, Mijatovic achou que teria condições de opinar sobre como um jovem negro deve atuar frente a uma sociedade racista.

A tentativa de podar o comportamento de Vini, no entanto, não deu certo. O jogador da seleção brasileira dá sinais de que sua luta contra o racismo no esporte é a principal causa da sua vida. Diante de tamanha rebeldia e da derrota, a comunidade europeia tem tentado minimizar o futebol de Vini e responsabilizando seu comportamento pelos poucos revezes vívidos em sua carreira.

Critérios da France Football são questionados

Após a noite de gala que consagrou Rodri como melhor do mundo, o editor-chefe da publicação francesa France Football, que organizou a premiação em parceria com a Uefa, em entrevista ao L’Équipe opinou sobre o que faltou para que o brasileiro levasse o título de melhor da temporada.

“Evidentemente, Vinicius certamente sofreu com a presença de [Jude] Bellingham e [Dani] Carvajal no top 5 porque, matematicamente, isso lhe tirou alguns pontos. Isso também resume a temporada do Real Madrid, que teve entre 3 e 4 jogadores, e os jurados dividiram suas decisões entre eles, o que beneficiou Rodri”, explicou Vincent Garcia.

Os prêmios de melhor jogador e jogadora da temporada são definidos através de um júri composto por jornalistas especializados dos 100 países que ocupam as primeiras posições no ranking da Fifa

Cada jurado precisa selecionar 10 desses 30 jogadores e colocá-los em ordem de acordo com o que julgam sobre seus desempenhos. O primeiro colocado de cada eleitor ganha 15 pontos, e os seguintes 12, 10, 8, 7, 5, 4, 3, 2 e 1, respectivamente. O atleta que tiver a maior pontuação na soma dos votos de todo o júri leva a Bola de Ouro.

A justificativa do editor-chefe da France Football, por tanto, diz que Vini Jr não venceu o Bola de Ouro porque companheiros de time, considerado o melhor elenco na temporada 2023-23, tiraram votos do craque brasileiro.

Claramente, depois de enumerado todos os feitos do espanhol e do brasileiro na temporada, a explicação não cola. E o jornal catalão Sport dá o caminho do motivo pelo qual Vini foi preterido ao dar espaço a um artigo esclarecedor sobre a ótica europeia e racista do velho mundo.

Em coluna publicada no site do veículo, o jornalista L.Miguel Sanz celebra a derrota de Vini Jr dizendo que o espanhol do Manchester City venceu a “Bola de ouro dos valores”. “Aqui não vale só ganhar e meter gols”, disparou.

O jornalista não desmerece o talento do atacante do Real Madrid. No entanto, defende que não se vence a Bola de Ouro apenas por títulos e rendimento em campo, mas também pela pessoa e os valores que ela representa. Embora Vini Jr seja um ícone da luta antirracista e seu enfrentamento venha mudando a forma como o futebol espanhol lida com o assunto, para ele o brasileiro “tem muito o que aprender”.

“Porque seus contínuos protestos e provocações, seus atos reprováveis no campo e a sensação de que não aprende certamente lhe tirou votos”, escreveu o jornalista, que continua.

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