Reservistas israelenses assinam carta contra “guerra eterna” e exigem solução diplomática

Há uma escalada de frustrações com a liderança de Netanyahu, que, segundo os signatários, usa a guerra como um instrumento político, ampliando a destruição e ameaçando o bem-estar de Israel.

Operadores de escavadeiras em Gaza apresentaram os relatos mais traumáticos de como são obrigados a esmagar corpos e ficam com as imagens assombrando-os após voltarem da guerra. Imagens de divulgação das FDI

Em uma atitude sem precedentes, mais de 130 reservistas israelenses assinaram uma carta aberta ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e ao ministro da Defesa Yoav Gallant, afirmando que recusam a servir caso o governo continue a conduzir a guerra em Gaza sem buscar um acordo de paz. Esta não é a primeira vez desde os ataques do Hamas que reservistas declaram sua recusa em servir. Em maio, mais de 40 reservistas assinaram uma carta depois que forças israelenses invadiram a cidade de Rafah, no sul de Gaza. Mas para esta nova carta, esse número mais que dobrou, e os riscos são muito maiores, já que Israel trava uma guerra em várias frentes.

Em 7 de outubro, Yotam Vilk se ofereceu voluntariamente para proteger a população israelense após um ataque do Hamas no sul do país, passando mais de 230 dias em serviço. Contudo, ele agora acredita que o governo não demonstra intenção real de encontrar uma solução pacífica para o conflito, e sim, perpetuar uma “guerra eterna” que ameaça não apenas palestinos, diz ele em entrevista à CNN, mas também o bem-estar da sociedade israelense.

A carta dos reservistas surge em meio a uma escalada de frustrações com a liderança de Netanyahu, que, segundo os signatários, usa a guerra em Gaza como um instrumento político, ampliando a destruição e afastando ainda mais a possibilidade de trazer os 101 reféns israelenses em Gaza para casa. Segundo Vilk, a pressão militar crescente está tornando insustentável a vida em Gaza e criando um ciclo de violência sem perspectiva de solução.

Evitando falar de números

O exército israelense informa que está fornecendo cuidados para milhares de soldados que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou doenças mentais causadas por traumas durante a guerra. Reportagens no país trazem à público casos de suicídio de soldados retornados de Gaza. Não está claro quantos tiraram suas próprias vidas, já que as Forças de Defesa de Israel (FDI) não forneceram um número oficial. O jornal israelense Haaretz informou que 10 soldados tiraram suas próprias vidas entre 7 de outubro e 11 de maio, de acordo com dados militares obtidos pelo jornal.

Em uma declaração em agosto, a divisão de reabilitação do Ministério da Defesa de Israel disse que, a cada mês, mais de 1.000 novos soldados feridos são retirados do combate para tratamento, 35% dos quais reclamam de seu estado mental, com 27% desenvolvendo “uma reação mental ou transtorno de estresse pós-traumático”. Acrescentou que até o final do ano, 14.000 combatentes feridos provavelmente serão internados para tratamento, aproximadamente 40% dos quais deverão enfrentar problemas de saúde mental.

Em 2021, o suicídio foi a principal causa de morte entre os soldados das FDI, informou o Times of Israel, citando dados militares que mostraram que pelo menos 11 soldados tiraram suas próprias vidas naquele ano.

As autoridades israelenses fecharam Gaza para jornalistas estrangeiros, a menos que sob escolta da IDF, dificultando capturar a extensão total do sofrimento palestino. Soldados israelenses que lutaram no enclave dizem em inúmeras reportagens que testemunharam horrores que o mundo exterior nunca poderá compreender plenamente. Seus relatos oferecem um vislumbre da brutalidade do que os críticos chamaram de “guerra eterna” de Netanyahu, e o preço intangível que isso cobra dos soldados que participam.

Guy Zaken, copiloto de escavadeira, falou publicamente sobre o trauma psicológico sofrido pelas tropas israelenses em Gaza. Em um depoimento ao Knesset, o parlamento de Israel, em junho, Zaken disse que, em muitas ocasiões, os soldados tiveram que “atropelar terroristas, mortos e vivos, às centenas”. “Tudo esguicha”, acrescentou. Seu amigo Eliran Mizrahi, de 40 anos e pai de quatro filhos, foi um dos ex-soldados suicidas que também pilotava uma escavadeira em Gaza.

Desta forma, os milhares de soldados recrutados, muitos deles saindo da adolescência, testemunham a naturalização de uma violência extrema que os civis de seu país ignoram. As imagens atrozes que circulam pelo mundo são omitidas dos noticiários locais e censuradas pelas mídias sociais. No aniversário de um ano do ataque de 7 de outubro, uma pesquisa publicada pelo Instituto de Democracia de Israel descobriu que apenas 6% dos israelenses acham que a guerra em Gaza deveria ser interrompida devido ao “grande custo em vidas humanas”.

“Linha vermelha” e rejeição ao “militarismo religioso”

O documento foi motivado por um forte desencanto com a condução política do conflito e pela convivência com camaradas cujas motivações incluíam um fervor religioso que chocou muitos dos signatários. Max Kresch, que serviu na fronteira entre Israel e o Líbano, descreveu a atmosfera de seu pelotão como “religiosamente militarista”. Em um episódio relatado, um colega afirmou acreditar que era seu “dever religioso” matar crianças palestinas, sob a alegação de que elas se tornariam futuros terroristas. A situação provocou em Kresch um profundo desconforto e, em última instância, uma rejeição ao serviço militar que, segundo ele, se afastou da ética e dos objetivos de paz.

Consequências e repercussões da carta

A carta de recusa gerou uma resposta dura do governo, que rapidamente sinalizou repercussões contra os signatários. A ministra dos Transportes, Miri Regev, sugeriu que esses reservistas fossem detidos por se oporem ao serviço militar, declarando que “não há lugar para recusas no exército, nem da direita, nem da esquerda”. Para muitos reservistas, a pressão do governo é uma tentativa de silenciar vozes que pedem o fim da guerra, mesmo que isso signifique uma ruptura com os valores democráticos e com o diálogo interno no país.

Apesar das pressões, Vilk reafirma que sua recusa é baseada em princípios morais e éticos, priorizando uma abordagem que busca soluções diplomáticas, e não o prolongamento do conflito. “Estou mais preocupado com minhas decisões morais, com meu bem-estar e com minha capacidade de olhar para trás e acreditar que fiz as escolhas certas e que estava do lado certo da história”, afirmou.

Impacto da carta e reflexos na sociedade israelense

A carta pública dos reservistas revela um sentimento crescente entre alguns setores da sociedade israelense de que a guerra em Gaza se transformou em um objetivo político, desconsiderando as vidas perdidas e os traumas gerados. Para os signatários, o prolongamento da guerra em várias frentes, incluindo operações no sul do Líbano, parece representar uma estratégia de governo que explora o trauma coletivo do povo israelense para justificar ações militares contínuas.

Ao se recusarem a servir, os reservistas israelenses esperam abrir um diálogo sobre a paz e sobre uma política de segurança que priorize a vida e a dignidade de todos os envolvidos, desafiando um paradigma militarista que, segundo eles, não representa os melhores interesses do país.

Com informações da CNN

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