Vida selvagem global sofre queda de 73% em 50 anos

Às vésperas da COP16, na Colômbia, relatório da ONG WWF alerta para pontos de não retorno que ameaçam ecossistemas e sociedade

O Instituto Mamirauá registrou a morte de mais de 100 mamíferos como o boto vermelho e o tucuxi | Foto: Miguel Monteirro/Instituto Mamiruá

A vida selvagem ao redor do mundo está em um ponto crítico, com uma redução média de 73% nas populações monitoradas de animais selvagens entre 1970 e 2020, segundo o relatório Planeta Vivo 2024 – Um sistema em Perigo, do World Wide Fund for Nature (WWF). Publicado nesta quinta-feira (10), o documento chega às vésperas da 16º Conferência de Biodiversidade da ONU, a COP16, alerta para a aproximação de pontos de não retorno que podem trazer consequências devastadoras para a humanidade.

Os dados mostram que as quedas mais acentuadas foram registradas na América Latina e no Caribe, com uma impressionante redução de 95%, seguidas pela África (-76%) e Ásia-Pacífico (-60%). Os autores do relatório alertam que a Terra se aproxima de “pontos de não retorno perigosos”, o que coloca em risco não apenas as espécies, mas também os serviços ecossistêmicos essenciais para a humanidade.

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O Índice Planeta Vivo (IPV), utilizado como base para o estudo, monitorou quase 35 mil tendências populacionais de 5.495 espécies entre 1970 e 2020. Ele apontou que os ecossistemas de água doce foram os mais afetados, com um declínio de 85%, seguidos pelos ecossistemas terrestres (-69%) e marinhos (-56%).

Crises interligadas e pontos de não retorno

Segundo Kirsten Schuijt, Diretora Geral do WWF Internacional, “a natureza está emitindo um pedido de socorro. As crises interligadas de perda da natureza e mudanças climáticas estão empurrando a vida selvagem e os ecossistemas além de seus limites, com pontos de não retorno globais que ameaçam danificar os sistemas de apoio à vida na Terra e desestabilizar as sociedades.”

Esses pontos de não retorno representam limites críticos além dos quais os ecossistemas podem sofrer mudanças irreversíveis. Um exemplo preocupante é o caso da Floresta Amazônica, onde desmatamento e mudanças climáticas estão reduzindo as chuvas. Se entre 20% e 25% da Amazônia for destruída, as condições ambientais podem se tornar insustentáveis para a floresta tropical, com graves consequências para a biodiversidade e o clima global. Atualmente, estima-se que de 14% a 17% já foi desmatada.

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Além disso, recentemente, a Amazônia registrou o nível mais alto de incêndios em 14 anos, e foi confirmado um quarto evento global de branqueamento em massa de corais, essenciais para a biodiversidade marinha e a segurança alimentar de milhões de pessoas.

O relatório destaca que “quando os ecossistemas são danificados, eles deixam de fornecer à humanidade os benefícios dos quais dependemos – ar limpo, água e solos saudáveis para a produção de alimentos – e tornam-se mais vulneráveis a pontos de inflexão”.

Kirsten Schuijt adverte: “As consequências catastróficas de perder alguns dos nossos ecossistemas mais preciosos, como a Floresta Amazônica e os recifes de corais, seriam sentidas por pessoas e pela natureza ao redor do mundo.”

Metas globais e compromissos insuficientes

Apesar de os países já terem acordado metas para reverter a perda da natureza e limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC, o Relatório Planeta Vivo 2024 indica que os compromissos nacionais e as ações concretas ainda estão longe do necessário para atingir essas metas até 2030 e evitar os pontos de não retorno.

As próximas cúpulas internacionais, a COP16 sobre Biodiversidade, que ocorrerá de 21 de outubro a 1º de novembro de 2024 em Cali, Colômbia, e a COP29 sobre Mudanças Climáticas, que será realizada de 11 a 24 de novembro de 2024 em Baku, Azerbaijão, são vistas como oportunidades cruciais para que os países aumentem seus compromissos e ações. O WWF pede que governos e empresas alinhem melhor suas políticas e ações em relação ao clima, à natureza e ao desenvolvimento sustentável.

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“O que acontecer nos próximos cinco anos vai determinar o futuro da vida na Terra,” alerta a WWF. “Temos apenas um planeta vivo e uma oportunidade para acertar”. O apelo é para que os países e empresas tomem medidas urgentes para eliminar atividades prejudiciais à biodiversidade e redirecionem financiamentos para práticas sustentáveis.

A COP29, que será realizada no Azerbaijão, simboliza um momento significativo na luta contra a crise climática, acontecendo justamente no local que deu origem à era dos combustíveis fósseis, um dos principais responsáveis pela crise ambiental atual.

Confira a íntegra do relatório abaixo.

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