Entidades criticam 2ª maior taxa de juros reais do mundo
Para setor produtivo, decisão do BC prejudica recuperação econômica e encarece o poder de compra das famílias
Publicado 20/06/2024 10:36 | Editado 21/06/2024 09:02

Entidades da sociedade civil e políticos criticaram a decisão conservadora do Banco Central (BC) que, nesta terça (18), optou por interromper o ciclo na queda dos juros básicos da economia, deixando a taxa Selic no patamar de 10,5% ao ano.
Na avaliação deles, a manutenção dos juros prejudica a recuperação da economia, atrasa o desenvolvimento econômico e impede a geração de empregos e investimento em diversos setores produtivos do país.
Em postagem na rede social X, antigo Twitter, o deputado federal Orlando Silva classificou como um “escândalo” a manutenção da taxa Selic. A decisão do BC de interromper o corte na taxa Selic é um escândalo, um desserviço ao desenvolvimento econômico e aos setores produtivos”, disse.
Orlando ainda suspeitou da autonomia do presidente do BC, Roberto Campos Neto. “É uma verdadeira sabotagem da herança bolsonarista contra o país!”, afirmou.
Já a presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) classificou de injustificada a decisão do Copom.
“Não há justificativa técnica, econômica e muito menos moral para manter a taxa básica de juros em 10,5% [ao ano], quando nem as mais exageradas especulações colocam em risco a banda da meta de inflação. E não será fazendo o jogo do mercado e dos especuladores que a direção do BC vai conquistar credibilidade, nem hoje, nem nunca”, criticou a parlamentar.
O economista da subseção do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) na Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Gustavo Cavarzan, explica que a Selic alta prejudica o governo com a meta fiscal, preterindo recursos para saúde e infraestrutura, por exemplo.
“Juros altos prejudicam o governo, com aumento de custos no pagamento dos títulos da dívida pública, reduzindo recursos para outras áreas importantes, como saúde e infraestrutura. A Selic também influencia nos juros de todo o sistema financeiro, com isso, o crédito fica mais caro para famílias e empresas, aumentando o endividamento e, ao mesmo tempo, impedindo investimentos na economia real e, portanto, na criação de mais empregos”, resumiu.
A CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) afirmou em nota que a manutenção da segunda maior taxa básica de juros do mundo só beneficia o mercado financeiro e restringe o potencial econômico do país.
“A alta taxa só benecia a especulação e o rentismo. Ela restringe o potencial de crescimento do país e diminui a capacidade de investimentos em serviços públicos essenciais como educação, saúde e infraestrutura, uma vez que obriga o governo a pagar mais juros pela dívida pública”, afirma a CTB.
“Como resultado, milhares de obras estão paradas e metade da população em condições de trabalhar está na informalidade, sem direitos e sem aposentadoria. Enquanto isso, os banqueiros lucraram 26 bilhões de reais só no último trimestre”, conclui.
Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a decisão do Copom foi inadequada e excessivamente conservadora. Na terça-feira (18), a CNI tinha pedido que o BC continuasse a cortar os juros básicos da economia. Segundo a entidade, a decisão só vai impor restrições adicionais à atividade econômica, com reflexos negativos sobre o emprego e a renda, sem que o quadro inflacionário exija tamanho sacrifício.
“Já era uma decisão aguardada pelo mercado, porém, o que estamos observando é que ela pode produzir um efeito negativo, especialmente sobre o consumo das famílias, tendo em vista que nós atualmente temos uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Nossa preocupação é que a manutenção da taxa Selic em 10,5% ao ano, interrompendo o ciclo de queda, possa prejudicar tanto o investimento, quanto o consumo das famílias”, advertiu o economista-chefe da Apas, Felipe Queiroz.
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