Inundação no RS desencadeia alerta de epidemias em sistema de saúde desestruturado
Desde as doenças de pele e intoxicações por ingestão de água suja, as epidemias devem avançar pelo Rio Grande do Sul, conforme evoluam com outros riscos como de dengue.
Publicado 13/05/2024 17:35 | Editado 13/05/2024 17:38

As recentes inundações que devastaram o Rio Grande do Sul não apenas deixaram um rastro de destruição, mas também acenderam o alerta para possíveis consequências de saúde pública que podem persistir por muito tempo. Com centenas de milhares de desabrigados e milhões de pessoas afetadas, especialistas alertam para um aumento significativo nos casos de diversas doenças infecciosas.
De acordo com o boletim divulgado pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul nesta segunda-feira (13), 447 municípios foram afetados pelas tempestades. O estado registra um total de 80.826 pessoas em abrigos e 538.241 desalojados, afetando mais de 2,1 milhões de pessoas. Até o momento, foram confirmadas 147 mortes, 127 desaparecidos e 806 feridos, além do resgate de mais de 10.000 animais durante as operações de socorro e resgate.
De acordo com evidências colhidas a partir de grandes enchentes ocorridas em todo o mundo nos últimos anos, espera-se um aumento expressivo nos casos de doenças como diarreia, problemas respiratórios, leptospirose, hepatite A e dengue. Essas doenças tendem a surgir em ondas, dependendo do tempo de incubação dos patógenos e do tipo de exposição de risco que as pessoas enfrentaram durante e após o desastre.
O primeiro contato com a água contaminada durante as inundações representa um risco significativo de adoecimento. O contato direto com água contaminada, seja através da pele, das mucosas ou da ingestão acidental, aumenta a probabilidade de contrair doenças infecciosas.
Nos primeiros dias após as inundações, é esperado um aumento nos casos de infecções de pele, pneumonias por aspiração, infecções respiratórias virais e gastroenterites. Estes são geralmente associados ao contato com a água contaminada e às condições de aglomeração nos abrigos.
Passados cerca de sete a dez dias do desastre, outras doenças começam a se tornar preocupações, como a leptospirose. O tempo de incubação desta doença pode variar de 7 a 14 dias, durante os quais os sintomas podem não ser aparentes. É recomendado um tratamento profilático para pessoas de alto risco, como equipes de resgate e voluntários, que estiveram em contato prolongado com água contaminada.
Além da leptospirose, outras doenças transmitidas pela água, como tétano e hepatite A, também são preocupações nesta fase. Vacinação e medidas de proteção pessoal são essenciais para prevenir a propagação dessas doenças.
Embora a dengue não seja uma preocupação imediata devido às baixas temperaturas esperadas no outono gaúcho, os especialistas alertam para a possibilidade de um ressurgimento da doença quando as temperaturas subirem. A vigilância laboratorial ativa é recomendada para detectar possíveis surtos.
Além das questões de saúde física, também é importante considerar os impactos na saúde mental e emocional das pessoas afetadas pelas inundações. O sistema de saúde precisa estar preparado para lidar não apenas com as consequências imediatas das enchentes, mas também com os desafios de longo prazo que surgirão.
Diante desse cenário desafiador, os profissionais de saúde e as autoridades devem trabalhar em conjunto para implementar medidas preventivas, oferecer tratamento adequado e garantir que todas as necessidades de saúde da população sejam atendidas da melhor forma possível.
Ministério da Saúde agindo
Neste domingo (12), o Ministério da Saúde intensificou suas ações de assistência nos municípios atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Três equipes volantes da pasta foram mobilizadas para atuar em cidades selecionadas de acordo com a gravidade da situação. Cada equipe era composta por médicos, enfermeiros volantes e aeromédicos.
As enchentes provocaram danos totais ou parciais em 141 unidades de saúde, das quais dez hospitais tiveram que ser evacuados após serem invadidos pelas águas, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde. Em um deles, em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, três pacientes em estado grave morreram durante a operação de resgate. Nas unidades que seguem funcionando, os procedimentos eletivos (não urgentes) foram todos cancelados pelo risco de desabastecimento de insumos.
O banco de voluntários da Força Nacional do SUS recebeu a adesão de mais de 20 mil profissionais da saúde, elevando o total de cadastrados para 68.464 até a tarde da quinta-feira (9), comparado aos 46.718 do dia 30 de abril. A Força Nacional do SUS está em operação no estado desde o acionamento do Ministério da Saúde em 2 de maio, com reforços sendo enviados, incluindo técnicos operacionais, integrantes da Polícia Rodoviária Federal e do Corpo de Bombeiros. Além de atuar em tragédias ambientais, a Força Nacional do SUS também intercede em situações epidemiológicas de risco nacional, surtos e epidemias graves.
Os municípios-alvo das missões foram Canoas, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Santa Maria, São Sebastião do Caí, Guaíba, Charqueadas e São Jerônimo. Nessas localidades, equipes do Ministério da Saúde realizaram atendimentos médicos e psicossociais nos abrigos destinados às pessoas que perderam suas moradias devido às enchentes.
Além dos atendimentos diretos à população afetada, as equipes também realizaram um levantamento sobre o funcionamento das unidades de saúde locais. O objetivo é identificar postos de saúde que possam ser ativados ou reforçados para aumentar a capacidade de atendimento à população nas áreas afetadas pelas enchentes.
“Seguimos ampliando as nossas forças e ações assistenciais, avaliando a viabilidade de deslocamento e a segurança das equipes”, afirmou Márcio Garcia, diretor do Departamento de Emergências em Saúde Pública do Ministério da Saúde. Ele destacou que as missões contaram com equipes intersetoriais, envolvendo também a Vigilância em Saúde e a Atenção Primária.
Garcia ressaltou que, nos próximos dias, não estão previstos grandes deslocamentos das equipes de assistência, devido às condições climáticas e meteorológicas. Os atendimentos continuarão concentrados e localizados para garantir a segurança das equipes e a eficácia das operações de socorro e assistência.
Ondas de epidemias, medidas preventivas
Confira de forma esquemática os vários riscos epidêmicos e doenças que podem surgir devido às condições insalubres e à contaminação da água, com medidas preventivas para minimizá-las. Alguns desses riscos incluem:
- Doenças Transmitidas pela Água: A contaminação da água pode levar ao aumento de doenças transmitidas pela água, como cólera, diarreia, febre tifoide e hepatite A. A água parada pode se tornar um reservatório ideal para bactérias, vírus e parasitas.
- Doenças de Pele: O contato prolongado com água suja e lama pode causar infecções na pele, como dermatite e infecções fúngicas.
- Doenças Respiratórias: A umidade excessiva e o crescimento de mofo em ambientes inundados podem desencadear doenças respiratórias, como alergias, asma e infecções respiratórias.
- Doenças Transmitidas por Vetores: As enchentes criam condições ideais para a proliferação de mosquitos, aumentando o risco de doenças transmitidas por vetores, como malária, dengue, zika e febre amarela.
Para minimizar esses problemas, os serviços de saúde devem agir de forma proativa e coordenada. Aqui estão algumas medidas que podem ser adotadas:
- Fornecimento de Água Potável: É crucial garantir o acesso a água potável para evitar a propagação de doenças transmitidas pela água. Isso pode envolver a distribuição de água engarrafada ou a implementação de sistemas de purificação de água.
- Campanhas de Higiene: Educar a população sobre práticas de higiene adequadas, como lavagem das mãos, uso de sanitários e descarte adequado de resíduos, é essencial para prevenir a propagação de doenças.
- Vacinação: Administrar vacinas contra doenças como cólera, febre tifoide e hepatite A pode ajudar a proteger a população vulnerável.
- Controle de Vetores: Implementar medidas de controle de vetores, como a aplicação de inseticidas e a remoção de criadouros de mosquitos, pode ajudar a reduzir a incidência de doenças transmitidas por vetores.
- Atendimento Médico de Emergência: Estabelecer clínicas móveis ou postos de saúde temporários nas áreas afetadas pode garantir que as pessoas tenham acesso rápido a cuidados médicos em caso de emergência.
- Monitoramento Epidemiológico: Realizar vigilância epidemiológica para detectar precocemente surtos de doenças e implementar medidas de controle adequadas.
- Reconstrução de Infraestrutura de Saúde: Após a inundação, é essencial reconstruir e fortalecer os sistemas de saúde locais para garantir que possam lidar com os desafios de longo prazo causados pela inundação e prevenir futuros surtos de doenças. Isso pode envolver a melhoria da infraestrutura de saúde, treinamento de pessoal médico e estoque de suprimentos médicos essenciais.
Ao adotar essas medidas, os serviços de saúde podem desempenhar um papel crucial na minimização dos problemas de saúde após uma grande inundação em um território tropical.