Juros por Educação: como o governo Lula quer reduzir a dívida dos estados
Além dos benefícios para as contas públicas nos estados, programa terá uma série de impactos econômicos positivos. Governo espera promover um “salto na produtividade do trabalho”.
Publicado 26/03/2024 14:41 | Editado 27/03/2024 13:03

A proposta está na mesa e tem o aval do presidente Lula. Seu idealizador é o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Pressionado por governadores – em especial, o de Minas Gerais, Romeu Zema, e o do Rio de Janeiro, Cláudio Castro – a refinanciar a dívida dos estados com a União, o governo trabalha para atrelar possíveis renegociações a mais investimentos no ensino técnico profissionalizante.
Com o objetivo de promover um “salto na produtividade do trabalho”, beneficiando a indústria, o agronegócio e o setor de serviços, o programa foi batizado de Juros por Educação. Como se trata de formação técnica – uma demanda cada vez maior do mundo do trabalho –,empresários devem apoiar a iniciativa. Detalhes do projeto foram divulgados pelo Ministério da Fazenda nesta terça-feira (26).
Trata-se, conforme a pasta, de um “pacto para reduzir os juros da dívida cobrados de estados e, em contrapartida, mais que triplicar o número de matrículas no ensino médio técnico”. Por que triplicar? Segundo a Fazenda, os indicadores do Brasil em rankings internacionais são desoladores. Hoje, estão “abaixo do padrão de Colômbia e Chile”. A meta é alcançar Alemanha, Austrália e outras nações de referência no ensino técnico profissionalizante.
Dos 7,7 milhões de matrículas de estudantes brasileiros no ensino médio, apenas 1,1 milhão estão integradas à formação profissional – o equivalente a 15%. O índice chega a 68% em países como a Finlândia. Em toda a União Europeia, a média é de 51%. Se tudo certo, o País vai acrescentar mais 3 milhões de estudantes no ensino médio técnico até 2030 – e o índice brasileiro pode chegar a 55%.
Os estados são importantes nessa pauta porque respondem por 85% das matrículas no ensino médio. Ao mesmo tempo, a União é credora de R$ 740 bilhões em dívidas dos estados. Cerca de 90% desse estoque, algo em torno de R$ 660 bilhões, se refere à dívida de quatro unidades federativas – São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
O Juros pela Educação terá cinco anos de vigência (2025-2030). Duas cláusulas do programa hão de interessar especialmente os estados endividados: 1) se as metas de expansão de matrículas forem atingidas até 2030, a taxa reduzida de juros passará a ser permanente; e 2) será possível a “amortização extraordinária de saldo devedor (10 a 20%) com benefício de redução permanente da taxa de juros (redução entre 0,5 a 1%a.a.) dos contratos”.
Um estado sem dívida com a União, ou com endividamento baixo, não será prejudicado. Ao contrário – a Fazenda lhe dará acesso prioritário a linhas de financiamentos para a expansão de matrículas.
De acordo com Haddad, além dos benefícios para as contas públicas nos estados, o Juros pela Educação terá uma série de impactos econômicos positivos: incremento estrutural de mais de 2% do PIB; ganhos sobre a produtividade e a renda do trabalho; elevação do desempenho escolar geral; redução da criminalidade; entre outros.
A Fazenda não esconde as altas expectativas: “Com essa proposta, o governo federal busca criar um pacto nacional em prol da formação profissional dos jovens no ensino médio, o que além de melhorar a empregabilidade e renda desses jovens, ajudará a construir um país com crescimento econômico estruturalmente maior e com estados com finanças públicas saneadas”.
Indiretamente, o programa será uma forma de combater a escalada neoliberal nos estados mais endividados, que tentam emplacar privatizações para reduzir seus débitos. Juros menores, ainda que num segmento específico, mandam uma mensagem para o Banco Central e sua política monetária ultraliberal.
Participaram da reunião com Haddad, em Brasília, os governadores do Sul e do Sudeste – a maioria de direita: Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Cláudio Castro (PL-RJ), Romeu Zema (Novo-MG), Renato Casagrande (PSB-ES), Ratinho Jr (PSD-PR), Jorginho Mello (PL-SC) e Eduardo Leite (PSB-RS).