Reforma tributária beneficiará 82% dos municípios, diz Ipea
Pesquisa mostra que, entre os favorecidos, estão os municípios mais pobres – 98% daqueles com PIB per capita abaixo da média nacional. A unificação do ICMS e do ISS em um novo imposto sobre bens e serviços é apontada como a principal mudança
Publicado 28/08/2023 13:18 | Editado 29/08/2023 12:50

Um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nesta segunda-feira (29) trouxe à tona dados que indicam uma redistribuição significativa nas receitas tributárias. De acordo com o estudo, se as mudanças já aprovadas pela Câmara dos Deputados forem ratificadas pelos senadores, 82% dos municípios e 60% dos estados poderiam expandir sua participação nas receitas tributárias.
Cidades com menor Produto Interno Bruto (PIB) per capita seriam beneficiadas pela mudança, com cerca de R$ 50 bilhões ou 21% das receitas municipais sendo realocadas, beneficiando 82% das cidades brasileiras e 67% da população que vivem nelas – que correspondem a 98% daqueles que possuem produto interno bruto per capita inferior à média brasileira.
A unificação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e o Imposto sobre Serviços (ISS) em um novo imposto sobre bens e serviços é apontada como o principal fator para essa mudança. A arrecadação desse imposto seria vinculada ao local de consumo, em vez de ser baseada na localização das empresas. “Se o imposto incide sobre o consumo e é pago pelos consumidores, nada mais justo e natural que esse imposto retorne para o local em que vivem as pessoas que pagaram por ele”, afirma Sergio Gobetti, um dos autores do estudo.
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A intitulada “Impactos redistributivos da reforma tributária” também mostra que a redistribuição de recursos resultaria em uma queda de 21% na desigualdade entre municípios, medida pelo Índice de Gini (indicador que mede a concentração de renda). Essa redução foi projetada para ocorrer em todas as unidades federadas do país, demonstrando o potencial transformador da reforma. Um exemplo notável é o caso de Goiás, onde a disparidade de receita tributária per capita entre o município mais rico e o mais pobre poderá ser reduzida de 127 vezes para apenas quatro vezes após a implementação das mudanças.
Para garantir a estabilidade das arrecadações, a regra de transição de 50 anos, juntamente com o fundo de seguro constituído com 3% da receita do novo imposto, é destacada como um ponto de segurança. Essa medida visa garantir que nenhum estado experimente uma queda brusca na arrecadação, mesmo sob cenários pessimistas de crescimento da economia.
No âmbito municipal, o estudo aponta que apenas um número limitado de municípios ricos – e no máximo 32 – correm o risco de ter queda de arrecadação em algum momento da transição, considerando um cenário mais pessimista no que diz respeito ao crescimento ecônomico. Mesmo para esses municípios, a transição será suavizada, permitindo que eles ajustem gradualmente seus orçamentos à nova realidade.
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O estudo também aborda como o crescimento econômico gerado pela reforma pode compensar as perdas iniciais de arrecadação para estados e municípios identificados inicialmente como “perdedores”, “ou seja, aqueles que perdem participação no bolo tributário devido às mudanças nos critérios de tributação e distribuição das receitas.”
Para comparar a trajetória das receitas de cada local com aquela que obteriam sem a reforma, o pesquisadoresdo do Ipea simularam três cenários de impacto da reforma sobre o crescimento econômico: impulso mínimo de 4% no PIB ao longo de 20 anos; crescimento adicional de 12% (cenário conservador); e crescimento adicional de 20% (cenário otimista).
A conclusão é que, no cenário de referência (conservador), “com o crescimento de 12% do PIB em 20 anos, nenhum estado chegaria ao vigésimo ano da transição pior do que estaria sem a reforma. Já no trigésimo ano de transição, neste mesmo cenário, quatro estados aparecem com perdas relativas não sendo totalmente compensadas pelo maior crescimento econômico. E após 50 anos da transição, esse número subiria para seis estados. Entre os municípios, pelo cenário conservador, os chamados perdedores não passam de 2% em 20 anos, 11% em 30 anos e 14% em 50 anos”.
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“Mesmo num cenário pessimista de crescimento econômico, tem uma ampla maioria ganhadora. A grandiosa maioria de municípios é beneficiada”, afirma Gobetti.
Em resumo, o estudo do Ipea fornece uma análise abrangente dos impactos redistributivos da reforma tributária, ressaltando seu potencial para reduzir a desigualdade entre estados e municípios, bem como estimular o crescimento econômico. Com números impressionantes que apontam para o beneficiamento de uma grande maioria das unidades federadas, o estudo destaca a perspectiva promissora de transformação trazida por essa reforma tributária.
A reunião com os 27 governadores, convocada pelo presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para essa terça-feira (29), deve abordar a disputa entre as regiões mais ricas e mais pobres sobre a divisão dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional, também prevista na reforma.
Distribuição das receitas
Abaixo, a lista dos Estados que ganham e perdem no bolo total de arrecadação com a aprovação da proposta de reforma tributária, de acordo com estudo do Ipea. Cada Unidade da Federação representa a soma das receitas do governo do Estado e de seus municípios.
Quem ganha
- Amapá: 49%
- Distrito Federal: 48%
- Piauí: 47%
- Rio Grande de do Norte: 27%
- Alagoas: 26%
- Acre: 22%
- Paraíba: 21%
- Sergipe: 19%
- Maranhão: 18%
- Ceará: 17%
- Paraná: 16%
- Rio de Janeiro: 16%
- Pará: 14%
- Rio Grande do Sul: 14%
- Tocantins: 13%
- Bahia: 8%
- Roraima: 3%
- Goiás: 3%
- Minas Gerais: 1%
- Pernambuco: 0%
- Santa Catarina: 0%
Quem perde
- Amazônia: -34%
- Espírito Santo: -30%
- Mato Grosso: -23%
- Mato Grosso do Sul: -21%
- São Paulo: -14%
- Rondônia: -8%
Municípios em risco
Veja as 32 cidades que podem perder arrecadação no cenário mais pessimista, segundo o estudo do Ipea.
- São Francisco do Conde (BA)
- São Gonçalo do Rio Abaixo (MG)
- Alto Horizonte (GO)
- Paulínia (SP)
- Guamaré (RN)
- Alvorada de Minas (MG)
- Barueri (SP)
- Cachoeira Dourada (MG)
- Itatiaiuçu (MG)
- Indianópolis (MG)
- Santa Rita do Trivelato (MT)
- Pimenteiras do Oeste (RO)
- Canaã dos Carajás (PA)
- Triunfo (RS)
- Jeceaba (MG)
- Rio Doce (MG)
- Ipojuca (PE)
- Perolândia (GO)
- Louveira (SP)
- Araporã (MG)
- Sandovalina (SP)
- Paraíso das Águas (MS)
- Aratiba (RS)
- Extrema (MG)
- Madre de Deus (BA)
- Tapira (MG)
- Selvíria (MS)
- Catas Altas (MG)
- Congonhas (MG)
- Ouvidor (GO)
- Alcinópolis (MS)
- Cubatão (SP)
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com informações do IPEA