Ex-presidente do Inep diz que ministro foi “totalmente omisso” no Enem
Alexandre Lopes acusou o ministro Milton Ribeiro de agir com covardia durante a organização do exame. Marcus Rodrigues, 1º presidente do Inep na gestão Bolsonaro, também criticou o chefe da pasta
Publicado 03/05/2021 17:32 | Editado 03/05/2021 17:36

O ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, concedeu uma entrevista ao jornal O Globo e acusou o ministro da Educação Milton Ribeiro de omissão na organização do Exame Nacional do Ensino Médio 2020 (Enem). Desafeto do pastor e ministro Ribeiro, Lopes condenou a atitude “com covardia” do chefe da pasta de Educação durante a realização do exame em meio à pandemia de Covid-19.
Lopes foi exonerado do cargo pelo ministro após a realização das provas em janeiro e fevereiro deste ano, que foram duramente criticadas por problemas nos protocolos de segurança e tiveram recorde de abstenções. O ex-presidente do Inep decidiu se manifestar após a atual gestão do órgão publicar uma nota criticando medidas implementadas por Alexandre Lopes.
No primeiro dia de prova, estudantes relataram que não havia vagas para todos nas salas de aulas e o distanciamento mínimo não era respeitado. Lopes afirma que tentou marcar uma reunião com Milton Ribeiro diversas vezes, mas recebeu respostas evasivas de secretários. “O Enem acontecendo no Brasil, em meio a uma pandemia, com todas as dificuldades, e o ministro se recusou a me receber”, disse Alexandre Lopes ao O Globo.
Preocupado com o número de abstenção e com a logística para a reaplicação da prova em Manaus, que teve o exame adiado devido à segunda onda de Covid-19, o então presidente do Inep continuou enviando mensagens para o ministro em busca de respostas. “Ele simplesmente me respondeu ‘ok, vai dar certo’. Foi essa a orientação dele para mim. Foi omisso. O ministro simplesmente fugiu do Enem”, revelou Lopes. “O impacto prático é que eu tive que tomar as decisões sozinho em relação ao Enem”, completou o ex-presidente do Inep.
Lopes ainda afirma que o orçamento para a organização do Enem era muito inferior ao ideal e foi preciso muito trabalho para realizar as provas. Em duras críticas ao ministro, Lopes disse que Ribeiro “foi omisso, totalmente omisso” e que “ao contrário da covardia e da incompetência do ministro Milton Ribeiro, se eu fosse ele, ano passado não tinha Enem.”

As omissões impactaram no quadro administrativo do órgão. Lopes afirmou que havia “várias questões administrativas paradas há meses que eu falei que estavam gerando problemas para o Inep”. O gestor citou como exemplo a demanda por 25 analistas na Comissão Técnica de Avaliação (CTA), que foi repassada para o ministro e que não teve resposta por seis meses.
A intenção do ministro Milton Ribeiro, na análise de Lopes, era se eximir de qualquer responsabilidade em relação ao Enem. “Acho que ele queria, com covardia, (passar a ideia que) ‘não tenho nada a ver com esse negócio do Enem. Deu errado, eu estava alheio. Ninguém me falou nada’.”
Para o Enem de 2021, previsto para novembro, as dificuldades ainda se mantém. A pandemia de covid-19 continua com números de casos e de mortes alarmantes, o orçamento do Inep é insuficiente e a instabilidade administrativa persiste. “O planejamento do Enem deste ano está bastante atrasado, tanto da execução quanto da elaboração da prova”, afirmou Lopes.
Alexandre Lopes foi o quarto nome a ocupar a presidência do Inep no governo Bolsonaro. No ato de sua demissão, no final de fevereiro, a Associação dos Servidores do Inep (Assinep) argumentou em nota que “a descontinuidade de gestão, com sucessivos períodos de instabilidade, tem contribuído fortemente para comprometer a execução do importante trabalho da autarquia na Educação”.
‘Milton Ribeiro está acabando com o Inep’
O primeiro presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nomeado pelo governo Bolsonaro, Marcus Vinicius Rodrigues, afirmou também em entrevista ao Globo que o ministro da Educação Milton Ribeiro não consegue “ter uma conversa de cinco minutos sobre políticas públicas educacionais” e “está acabando com o Inep”.
Rodrigues foi dirigente do Inep no início do governo Bolsonaro, até ser demitido, em março de 2019, pelo então ministro Ricardo Vélez.
Marcus Rodrigues reforçou que o quadro técnico do Inep é “muito preparado” e que Milton Ribeiro está “colocando para trabalhar com esse pessoal um bando de pessoas que não sabem nem falar”.
As declarações de Marcus Rodrigues publicadas pelo O Globo reforçam as críticas externadas por Alexandre Lopes, também publicadas no mesmo portal de notícias.

O Inep é responsável por avaliações de larga escala no país, como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Os resultados também são utilizados para o cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
Com informações de O Globo