Governo Bolsonaro desvia verba de teste da Covid-19 para ação de Michele
O jornal Folha de S.Paulo apurou que a verba foi repassada, sem edital de concorrência, a instituições missionárias evangélicas aliadas da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves
Publicado 01/10/2020 10:27 | Editado 01/10/2020 11:51

O governo Bolsonaro desviou R$ 7,5 milhões doados para compra de testes rápidos da Covid-19 e repassou ao programa Pátria Voluntária, liderado pela primeira-dama, Michele Bolsonaro. Os recursos foram doados pelo frigorífico Marfrig especificamente para a compra de 100 mil testes no período mais crítico da pandemia e quando faltava esses equipamentos no país.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo desta quinta-feira (1º), no dia 20 de maio, a empresa informou por escrito ao jornal que o dinheiro seria usado “com fim específico de aquisição e aplicação de testes de Covid-19”.
“No dia 1º de julho, no entanto, com o dinheiro já transferido, o governo Jair Bolsonaro a consultou sobre a possibilidade de utilizar a verba não mais nos testes, mas em outras ações de combate à pandemia. Os recursos foram então parar no projeto Arrecadação Solidária, vinculado ao Pátria”, explicou o jornal.
O jornal paulista apurou que a verba foi repassada, sem edital de concorrência, a instituições missionárias evangélicas aliadas da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, para a compra e distribuição de cestas básicas.
Os R$ 7,5 milhões doados representavam quase 70% dos R$ 10,9 milhões arrecadados para a compra dos kits de testes. Segundo o frigorífico, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, informou que o governo tentaria firmar parcerias com a iniciativa privada para financiamento de parte das compras dos kits. “Esperamos que nossa iniciativa seja seguida por outras companhias brasileiras”, disse o presidente do conselho de administração da empresa, Marcos Molina.
No entanto, no dia 1º de julho, o destino do recurso foi mudado para o programa da primeira-dama a fim de comprar alimentos, apesar da urgência na compra dos testes. Consulta na época, a empresa até concordou sob o argumento de que o dinheiro seria usado para combater os efeitos da epidemia.
AMTB
Os recursos foram enviados a AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras), indicada pela minstra Damares. A entidade consta no site da Receita Federal e em sua própria página na internet com o mesmo endereço de registro da ONG Atini, fundada por Damares em 2006 e onde a ministra atuou até 2015. A Folha esteve no local, onde funciona um restaurante desde novembro do ano passado. A reportagem pediu a prestação de contas das organizações à Casa Civil, que respondeu que ela é feita para a Fundação Banco do Brasil, que apoia o programa.
“Desde abril, foram arrecadados R$ 10,9 milhões, dos quais R$ 4,3 milhões foram aplicados até agora sem um edital público. Segundo a Casa Civil, o programa passou a fazer chamamento público para o restante das doações. Duas organizações filiadas à AMTB também receberam verbas de doações sem que houvesse um edital público. O Instituto Missional, com R$ 391 mil, e o SIM (Serviço Integrado de Missões), com R$ 10 mil. A AMTB e o Missional foram as que receberam os maiores repasses até agora”, revelou a reportagem.
Com informações da Folha de S.Paulo