Icônico e politizado, Teatro Fernando Santa Cruz reabre em Olinda
Nesta terça-feira (22), Olinda e Recife terão de volta um dos espaços mais icônicos e politizados do mundo das artes de Pernambuco: o Teatro Fernando Santa Cruz. Localizado na parte interna do Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda, onde funciona desde 2017 um Centro Cultural administrado pelo governo do estado, o espaço, agora requalificado, já tem atividades programadas até o mês de janeiro de 2020.
Publicado 22/10/2019 11:51 | Editado 04/03/2020 16:55

A noite de abertura será marcada pelo anúncio da primeira convocatória pública de Ocupação do Teatro, bem como o lançamento do Festival Fernando Santa Cruz de Artes Cênicas, que terá sua primeira edição em setembro de 2020, em referência à lei da anistia no Brasil, além da apresentação do monólogo Soledad, de Hilda Torres, que conta a história da militante paraguaia Soledad Barret assassinada em Pernambuco durante o regime militar.
A pauta de espetáculos teatrais prossegue no dia 01 de novembro, às 20h, com a apresentação da peça Antes que Desapareça – Ato 1, com Grupo Experimental; no dia 02/11, às 20h, no palco o Grupo de Teatro João Teimoso apresenta Retratos de Chumbo. No dia 08/11, o Coletivo Grão Comum apresenta os espetáculos Pro(FÉ)ta, das 9h às 20h, e Pa(IDEIA), a partir das 20h.
Renildo aprovou projeto
A recuperação física do teatro começou em 2015, quando o então prefeito de Olinda, Renildo Calheiros, conseguiu aprovar o projeto e captar recursos para as obras de requalificação do Mercado Eufrásio Barbosa, onde o teatro está instalado.
Teatro Fernando Santa Cruz, Olinda (PE)
“Em 2015, nossa gestão conseguiu aprovar o projeto e captar os recursos para realização da obra de requalificação do mercado. Agora, ele está muito bonito, e nele nós teremos salas para exposições permanentes e itinerantes, restaurantes, lanchonetes, centros de pesquisa e comercialização de artesanato. O Teatro Fernando Santa Cruz foi recuperado, incluindo sistemas de som, iluminação e rotas de acessibilidade. Para alcançarmos esse êxito, foi necessário muito trabalho e muita articulação política”, destacou o ex-prefeito em 2017, quando da reinauguração do mercado.
Fernando Santa Cruz, Presente!
Fernando Augusto de Oliveira Santa Cruz nasceu em 20/02/1948, quinto filho do médico sanitarista Lincoln Santa Cruz e de Elzita Santos de Santa Cruz Oliveira. Em 1º de abril de 1964, data do início do golpe militar, ele tinha apenas 16 anos, mas não tardou a se engajar na luta pela democracia, integrando-se ao Movimento Secundarista.
Com a feroz repressão intensificada após o general Médici assumir o governo, mudou-se para o Rio de Janeiro em dezembro de 1969, onde ingressou no curso de Direito da Universidade Federal Fluminense, tendo atuado no Centro Acadêmico do curso e no Diretório Central dos Estudantes. Em 1972, nasceu o único filho, Felipe, fruto do seu casamento com a também militante Ana Lúcia Valença. Nesse mesmo ano mudou-se para São Paulo, onde assumiu emprego conquistado por concurso público, no Departamento de Águas e Energia do Estado.
Coerente, Fernando decidiu estreitar os contatos com a APML e retomar a militância mais intensiva. Para isso, foi com a família passar o carnaval de 1974 no Rio de Janeiro. No dia 23 de fevereiro daquele ano foi ao encontro do amigo Eduardo Collier Filho, também pernambucano e militante da mesma organização, e nunca mais voltou. A confirmação do sequestro dos dois jovens pela polícia política veio com a invasão do apartamento de Eduardo, onde um grupo de homens, sem identificação alguma, revirou todos os pertences e levou os seus livros.
Fernando Santa Cruz
Sua mãe, dona Elzita, recentemente falecida, e seus irmãos buscaram durante anos por Fernando em diversas instâncias, mas não obtiveram informações sequer sobre a localização de seu corpo. Dona Elzita morreu sem saber o paradeiro do filho. Este ano, a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos entregou à família o atestado de óbito retificado de Fernando onde consta que ele faleceu “provavelmente no dia 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro/RJ, em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 198”.
Fernando não foi esquecido. Em 1979 os estudantes do curso de Direito da Universidade Católica de Pernambuco deram seu nome ao Diretório Acadêmico. Chama-se também Fernando Santa Cruz o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal Fluminense. Em 23/02/1984 a Câmara Municipal de Olinda aprovou uma lei dando, também, seu nome ao Teatro do Mercado Popular do Varadouro. Em 1985 é lançado o livro 'Onde está meu filho? História de um desaparecido político'.
O Teatro Fernando Santa Cruz foi palco, na passagem dos 15 anos do seu sequestro, 23/02/1989, de um ato público de louvor ao herói e denúncia dos crimes da ditadura, para que não mais se repitam. Em 21/03/1996 foi inaugurada a Escola Municipal Fernando Santa Cruz, no bairro do Jordão, Recife.
Em agosto deste ano, familiares, políticos, advogados e integrantes de partidos políticos realizaram ato em memória do militante desaparecido no regime militar e em repúdio a Bolsonaro quando afirmou que, caso Felipe Santa Cruz quisesse, ele contaria a verdade sobre o sumiço do seu pai. O ato contou com a participação de Luciana Santos, vice-governadora de Pernambuco e presidenta nacional do PCdoB, além de outros militantes e dirigentes comunistas.
Do Recife, Audicéa Rodrigues