Publicado 13/03/2019 09:16

Tratavam-se de medidas necessárias ao desenvolvimento do país, com o enfrentamento de um dos nossos mais graves problemas: a desigualdade social. Tais medidas incluíam a temida reforma agrária, porém feita com critérios que, segundo consta do Orvil (livro-relatório publicado pelas próprias Forças Armadas), foram adotados mais tarde.
João Goulart foi democraticamente eleito como vice-presidente da República em chapa separada de Jânio Quadros, que havia renunciado três anos antes. A famigerada reforma agrária e outras medidas centrais ao seu projeto de governo foram a marca do desenvolvimento de diversas economias, como as do Japão e dos Estados Unidos. Entretanto, por aqui tornaram-se um estigma político, temido pelas classes mais abastadas e, consequentemente, combatido com forças do Estado.
Portanto, apesar da sua legitimidade como presidente e do apoio recebido pela população de baixa renda, João Goulart estava sozinho no poder, perante as elites empresariais e agrárias. O seu ardente Comício do dia 13 de março acabou sendo a justificativa que a oposição procurava para ilustrar as acusações de que Goulart visava estabelecer, na verdade, um “regime comunista” no Brasil.
As reações negativas da imprensa e de entidades como o IPÊS (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), uma organização privada composta por empresários de extrema-direita, foram imediatas e virulentas. Jornais como O Globo, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e Correio da Manhã pregaram abertamente a deposição do presidente. Tais apelos resultaram na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 19 de março 1964.
No dia 28 de março, os generais Mourão Filho e Odílio Denys reuniram-se com o governador de Minas Gerais, Magalhaes Pinto e discutiram ações de derrubada do Governo. No dia 31 de março, Mourão Filho ordenou o início da marcha, antes mesmo do prazo combinado entre eles. Após algumas horas de tensão, as tropas pró e contra o Governo uniram-se em 1o de abril e João Goulart foi obrigado a deixar a Capital Federal.
O apoio dos Estados Unidos à deposição do presidente João Goulart foi ostensivo, a ponto de navios norte-americanos ficarem atracados no litoral brasileiro à espera de um pedido de ajuda das forças que articularam o Golpe de Estado, o que sequer foi necessário.
As Forças Armadas deixaram a presidência da República apenas em 1985, após eleições indiretas.
Décadas após o golpe, alguns de seus articuladores avaliaram que a decisão de derrubar o governo de João Goulart não saiu conforme o planejado, concluindo que a proposta de um golpe para mudar o país foi apenas um artifício para que um grupo representante das elites econômicas se firmasse no poder.
“Para que não se esqueça, para que não se repita…”
– O presente texto faz parte de uma série de relatos que estamos publicando diariamente, sobre eventos relacionados a graves lesões a direitos humanos. Nossa intenção é dar visibilidade à I Caminhada do Silêncio, em prol das vítimas de violações estatais, que a CEMDP está organizando para o dia 31 de março de 2019, em São Paulo.