Pedro Gorki: O problema do Brasil não é se a escola tem ou não partido
Na saída de mais uma sessão conturbada da comissão especial que debate o projeto ‘Escola sem Partido’, nesta quarta-feira (5), o presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), Pedro Gorki, conversou com o Portal Vermelho sobre as perspectivas de luta da juventude para o próximo ano.
Por Iberê Lopes*
Publicado 06/12/2018 19:43

Eleito em 2017, durante o 42º Congresso da UBES, a maior organização estudantil do país ao lado da União Nacional dos Estudantes (UNE), Pedro Gorki com apenas 17 anos, demonstra sua paixão pelo Brasil e pela América Latina em todas as suas manifestações públicas.
A atuação deste jovem, natural de Natal, Rio Grande do Norte, tem inspiração na frase “aquí se respira lucha”, presente na música ‘Latinoamerica’, da banda porto-riquenha Calle 13.
E de fato, Pedro Gorki respira e transpira entusiasmo consciente ao falar dos desafios postos para o sistema educacional em um ambiente político conservador e de retrocesso dos direitos conquistados pelo povo.
Depois da eleição do ultraliberal Jair Bolsonaro (PSL) para a presidência da República, o militante negro, nascido em um bairro de pescadores e operários na periferia da capital potiguar, se coloca no cenário nacional como uma das mais importantes figuras na luta pelo ensino público brasileiro e na preservação da democracia.
A UBES convocou para fevereiro do ano que vem o primeiro grande evento de resistência da juventude: o 4º Encontro Nacional de Grêmios (ENG), que será realizado em Salvador (BA). O encontro será integrado com a 11º Bienal da UNE, ampliada para Festival dos Estudantes e agora parte do calendário secundarista.
Nesta entrevista, Gorki se coloca frontalmente contrário ao conceito do PL 7180/14, apelidado pelo movimento estudantil de ‘Lei da Mordaça’, defende mais investimentos para as escolas e valorização dos professores. Ele promete enfrentamento diário ao governo de Bolsonaro, a quem chama de “tropeço histórico”.
Quais as principais bandeiras do movimento estudantil para 2019?
É não perder direitos conquistados, fundamentalmente, a partir da Constituição Federal (1988). Porque boa parte do programa educacional do Bolsonaro, que defende o EaD (ensino à distância) no Ensino Fundamental e o projeto ‘Escola sem Partido’ (projeto de lei 7180/14) são matérias inconstitucionais.
O EaD é proibido pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB 9394/96). E o ‘Escola sem Partido’ é proibido pela Constituição, a partir do artigo 206 da liberdade de ideias, pluralidade democrática e autonomia universitária. Então, nossa bandeira no próximo ano é não reduzir direitos e defender, principalmente, as instituições democráticas e a Constituição como forma de garantir a educação pública, gratuita, universal e de qualidade.
Se o êxito do governo Bolsonaro, no próximo ano, for através da construção de uma derrota ao sonho da juventude brasileira de uma educação pública, que derrote a nossa conquista de educação inclusiva, nós não esperamos que eles sejam vitoriosos.
Conhecido por declarações em defesa da repressão política no período da ditadura militar (1964-1985), o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, anunciado por Jair Bolsonaro…
Será que a gente vai ter uma educação do que é bem e mal por um ministro que defende a tortura de estudantes, que defende o regime militar, responsável pelo desaparecimento de mais de 300 pessoas até hoje no nosso Brasil? E mais centenas de estudantes que passaram por uma série de traumas por conta desse momento político de redução de direitos.
Nós já o consideramos ou desconhecedor da educação pública brasileira ou uma pessoa incompetente. Porque quando ele falou que a maior política (educacional) seria colocar o ‘Escola sem Partido’ (em funcionamento) e a pauta conservadora dentro da educação, ele demonstra desconhecer a realidade da escola brasileira.
A implementação do ‘Escola sem Partido’, pautada pela bancada fundamentalista no Congresso Nacional, por si só, resolve os gargalos da educação?
O problema do Brasil não é se a escola tem ou não tem partido. O problema é se nossa escola tem ou não tem merenda, professor de matemática básica. A questão são os mais de 40 milhões de jovens que saem do ensino médio sem mal saber ler e escrever (analfabetos funcionais). E por fim, a valorização dos professores.
Há uma contradição no discurso dos Bolsonaristas quando tentam através do ‘Escola sem Partido’ a ideologização do ambiente escolar com viés de ultradireita.
Eles se travestem desse discurso de tentar tirar a ideologia da escola para colocar o senso comum e a ideologia dominante, elitista, do status quo dentro da educação pública brasileira.
Na verdade, o projeto que eles têm não é nada de tirar a ideologia da escola, mas sim de colocar uma ideologia que seja de preservar uma sociedade que a cada três minutos estupra uma mulher, de ser conservadora no sentido de perpetuar uma situação de morte dos jovens negros onde a cada 23 minutos 1 jovem negro é assassinado. Querem preservar uma sociedade que essencialmente vive diversas crises (econômica, social, cultural).
A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.
O que eles (conservadores) querem é censurar, calar estudantes e professores. E tirar a possibilidade e a oportunidade de um debate livre sobre o Brasil, assim como foi colocado em 68 (Lei 5536, que criou o Conselho Superior de Censura, responsável pela proibição de obras teatrais e cinematográficas contrárias ao regime militar). Nós queremos construir um país democrático.
Afinal, Anísio Teixeira (1900-1971) já falava que ‘só existirá uma democracia no Brasil no dia em que se montar a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública’.
E é por isso que eles atacam a educação. Porque atacando a educação se ataca a soberania nacional, a ciência e tecnologia brasileira, a liberdade e a independência de um país. Se ataca principalmente a democracia e o senso crítico da juventude, que são o futuro e o presente do nosso país.
Se ele (Bolsonaro) acha que vai passar isso fácil, que ele saiba que existem dois obstáculos: a Constituição e o movimento estudantil.
Se o caminho não é o apontado na agenda conservadora do novo governo, qual saída é possível apontar?
A gente tem que derrotar estas crises dentro da sala de aula, através do debate. É preciso ter espaço para a juventude debater e construir o nosso Brasil. A escola não tem função social a partir do momento em que ela não consegue discutir os problemas que o país enfrenta.
É função da escola debater a gravidez na adolescência, o problema das drogas, o desemprego. Coisas que não estão apenas no currículo de matemática, português, história. A escola não representa apenas transmitir conhecimento e saberes. É você aflorar particularidades e construir coletivamente, com o estudante e os professores, concepções inclusive científicas.
Isso deve ser a escola pública brasileira.
Existe interesse econômico no ataque ao ensino público?
O próximo ministro da Fazenda do nosso país (Paulo Guedes, que assumirá o superministério da Economia em 2019) é acionista de empresas ligadas ao ensino à distância. Não é nenhum mito, nenhuma inverdade ou fakenews que Bolsonaro desde o início da campanha eleitoral é financiado por setores da sociedade que não são antisistêmicos ou anti-situação (contra o governo atual de Michel Temer).
São setores que sempre dialogaram com diversos governos, colocando pautas privatistas, entreguistas e neoliberais a quem esteve no poder.
Bolsonaro está dialogando com esta turma. Desde as grandes indústrias de livros, que vendem a ideia de ‘modernização’ do livro didático através do ‘Escola sem Partido’, até o ensino à distância. Na visão do futuro presidente (a educação) é mercantilista, de ‘TeleCurso2000’. Enfim, de tirar o aluno da sala de aula para colocar apenas online, deixando de pagar salário para o professor, terceirizando o serviço e dando dinheiro para uma indústria multinacional milionária.
Quais instrumentos são capazes de mostrar este cenário aos jovens e, se possível, conscientizar para a luta?
A gente consegue conquistar a juventude partindo de duas ações. Primeiro: analisando a realidade, e se indignando com a perspectiva de desmonte do sistema de ensino público. Isso faz com que a juventude queira se organizar nas entidades estudantis, grêmios e coletivos. Os jovens carregam uma essência revolucionária. Segundo ponto importante é a formação de redes que chamem essa juventude para estar presente na luta política.
Verás que um filho teu não foge à luta…
Tenho certeza que o jovem, que nunca temeu a luta e a mobilização, não vai temer mais esse novo desafio. Acho que já passamos por situações mais complicadas e muito mais difíceis e sobrevivemos. Esse é mais um capítulo da história brasileira que nós jovens venceremos.
Eu acho que Bolsonaro é um tropeço histórico para o caminho de desenvolvimento e progresso do nosso país. Mas, como todo o tropeço, nosso Brasil vai se levantar e conseguir derrotar pautas conservadoras, entreguistas e privatistas.
Acesse o site da Ubes para saber mais sobre o 4º Encontro Nacional de Grêmios e 11º Bienal da UNE – Festival dos Estudantes.