Venezuela: após farsa eleitoral da direita, a Constituinte é votada
No domingo (30), o povo venezuelano votou na Assembleia Constituinte. O caminho até aqui foi tremendo. Desde o início de 2017, mais de 100 pessoas morreram, na maioria das vezes por ataques atrozes provocados pela direita
Publicado 03/08/2017 19:20

Pelo menos 19 pessoas morreram queimadas vivas pelos anti-chavistas. Alguns nem eram militantes, eram apenas negros e pobres no meio de uma manifestação da oposição. Enquanto parte da mídia internacional reporta esses acontecimentos desumanos, a mídia italiana e espanhola continua fingindo que nada aconteceu.
Para alguns dos mortos, tem também o insulto póstumo: é o caso do sindicalista chavista Juan Lopez, estudante assassinado durante uma assembleia; os jornais ocidentais o trataram como “líder dos estudantes de oposição”. Claro, existem também mortes causadas por aqueles da base governista. Mas é verdade também que o governo de Maduro teve que aumentar a repressão para manter o controle. O que temos é que, antes do alto nível de violência posto em prática pela direita, a suposta ditadura totalitária de Maduro colocou dezenas de membros da força policial sob julgamento.
As eleições elegeram 540 deputados, dos quais 364 foram eleitos pelo sufrágio universal em divisões municipais e os outros foram votados pelas categorias sociais: operários, camponeses, estudantes, deficientes físicos, população indígena, aposentados, empreendedores e membros das comunas.
No dia 16 desse mês a oposição fez uma tentativa de plebiscito forçado. A Mesa de Unidade Democrática (MUD)- coalização dos partidos de direita- jogou o referendo sobre Maduro, sendo que o Supremo Tribunal já o tinha rejeitado. O objetivo da oposição era trazer mais de 11 milhões de pessoas para as urnas para alegar ampla maioria no país. No final, os organizadores do plebiscito divulgaram 7 milhões de votantes, número muito abaixo do estimado para cantar vitória, muito mais baixo, aliás, que os votos que o MUD conseguiu nas eleições regulares. Vale lembrar que a consulta foi feita fora dos moldes legais, com testemunhas que afirmaram ver gente votando mais de uma vez e sob os olhos de observadores internacionais que incluem a pior direita latino-americana. Basta citar Vicente Fox, ex-presidente mexicano, vencedor das eleições de 2000 graças a fraudes que foram flagradas.
Não há dúvida que o fracasso em tentar resolver a crise econômica tirou o consenso sobre o chavismo, tanto que nas últimas eleições parlamentares- ainda que maquiadas pela violência da direita- levaram a derrota do PSUV e dos aliados. Mas então por que o plebiscito foi um fracasso? A resposta é simples: os venezuelanos não querem uma guerra civil. Ainda que com algumas dificuldades, Maduro está tentando vigorosamente resolver a crise através do diálogo, soltando inclusive, antes da Constituinte, o chefe dos golpistas, Leopoldo Lopez. É bom lembrar que Lopez guiou um ataque armado à embaixada cubana durante o golpe de 2002.
Enquanto Maduro dialoga, a direita responde com violência. Na verdade, a direita está dividida e sabe que diante de um processo baseado no diálogo perderia sua força em diferentes frentes. Assim, precisa manter a tensão. E para isso apela para os mortos na praça, os ataques ao Parlamento e na TV de estado.
O Resumen Latinoamericano reportou que diversos setores capitalistas gostariam de ter participado do processo constituinte- com certeza para garantir seu espaço dentro de uma Constituição mais socialista. Diante desse pedido, Maduro respondeu que estaria disposto a adiar as eleições da Assembleia para entrar em um possível acordo com a direita golpista.
A situação é parecida em alguns aspectos com o Chile de Salvador Allende: uma crise econômica real – com motivos internos, mas muita influência e maquinação externa. Sabemos também que o processo venezuelano dura mais daquele chileno, e que os reacionários não hesitaram em virar inimigos das classes sociais em todos os pontos possíveis.