Saída de Xico Sá da Folha mostra uma nova fase na vida dos jornalistas
A saída estrepitosa de Xico Sá da Folha é um marco numa nova era na vida dos jornalistas. Xico deixou o jornal depois que foi proibido de expressar apoio a Dilma numa coluna.
Por Paulo Nogueira*, no Diário do Centro do Mundo
Publicado 14/10/2014 13:34

Quanto isso o indignou pode ser visto numa série de tuítes que continham um desabafo irado e sem freios.
“Só Reinaldões” podem defender candidatos na “imprensa burguesa”, disse ele.
Quer dizer: os candidatos que os donos das empresas apoiam, naturalmente.
Esse constrangimento – o jornalista saber que o limite de sua liberdade de expressão é a opinião de seu patrão – não é propriamente novo.
Novas são as circunstâncias trazidas pela Era Digital. Xico Sá tem, na internet, microfone para expor as suas razões e para criticar sem censura a Folha.
Terá também, na internet, maneiras de continuar sua carreira. É uma mídia florescente – ao contrário dos jornais – e ele construiu um nome capaz de atrair uma boa audiência.
Antes da mídia digital, pessoas incomodadas como Xico Sá engoliam seu desagrado pela falta de alternativas. Outros jornais e revistas eram a mesma coisa.
Agora, um jornalista não é obrigado a se contentar em repetir o que seu patrão quer que ele escreva.
A internet está aí. A autonomia é imensamente maior. Meu caso mesmo: em 25 meses de jornalismo digital expus muito mais minhas opiniões do que em 25 anos de carreira na Abril e na Globo.
Como é inexorável a migração – rápida — de publicidade para meios digitais, o jornalismo na internet logo atrairá os melhores jornalistas, como Xico Sá.
Mídias dominantes, ao longo da história, atraem os jornalistas mais talentosos. Nelas as oportunidades são maiores, o público é crescente – e as perspectivas na carreira parecem ilimitadas.
Para a Folha, a saída de Xico Sá é um golpe no marketing com que ela tenta convencer as pessoas de que não tem rabo preso com ninguém.
Tem sim.
Apenas, disfarça para enganar leitores menos argutos e mais crédulos.
Mas para quem trabalha lá a realidade não é muito diferente da que você tem em redações como a da Veja.
Você tem toda a liberdade de expressar suas opiniões – desde que elas coincidam com as dos donos.
*Fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo, ex-diretor da revista Exame e da revista Veja.