Carnaval 2014: as super escolas de Samba S/A
Você pode até não gostar de samba, mas se for um bom sujeito já ouviu e se lembra desses dois sambas-enredos. Houve um tempo no Brasil que os danados desses sambas nunca mais se separavam de nossas vidas.
Por Eduardo Nunomura*
Publicado 21/02/2014 17:20
Ocupavam o espaço que hoje músicas chicletes dos mais variados gêneros insistem em invadir – “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló, “Piradinha”, de Gabriel Valim, ou “Show das Poderosas”, de Anitta, servem de exemplos. Ao ouvir o CD “Sambas-enredos do Rio 2014″ em contraste com clássicos de carnavais passados, a sensação é de uma tristeza só.
Justiça seja feita antes de prosseguir. A São Clemente vem com um belo samba-enredo neste ano, terceira escola a desfilar no domingo (2 de março). “Favela” busca exatamente associar a existência da batucada na música brasileira com o que de melhor já se produziu nos morros e guetos do Rio. “É nas vielas que nasce/ o mais puro samba/ Se tem batucada nos guetos tem bamba/ É o coração quem manda…” diz um dos refrões. De autoria de Ricardo Góes, Serginho Machado, Naldo, Grey, Anderson, Benson, FM e Flavinho Segal, a composição é um resgate da história das favelas, berço da cultura popular. Se vai pegar, aí é outra história.

Duas dissertações de mestrado, uma da Universidade Federal do Rio de Janeiro e outra da Universidade de São Paulo, jogam por terra as esperanças de quem sonha que o carnaval volte a produzir sambas-enredos memoráveis. O desfile e tudo o que gira em torno dele acabaram virando um “negócio promissor”, parte de uma indústria cultural que transforma a obra artística num produto con fins lucrativos.
“Tal mercadoria produzida por essas escolas, seja nos seus barracões – agora apropriadamente chamado de indústria do samba – seja, nas suas quadras, é constantemente observada por verdadeiros oligopólios do capital, principalmente, mas não somente, na área de hotelaria e turismo e, é claro, na mídia”, escreve Fábio da Silva Calleia, autor de “Folias de Carnaval e Lucros do Capital” (UFRJ, 2010).
Calleia tem credenciais para fazer a crítica. Quando publicou seu trabalho, lembrou que vem de uma família do samba, que já havia trabalhado por seis anos na Imperatriz Leopoldinense e mais seis na Grande Rio, exercendo até a função de presidente de ala. Foi desfilando que percebeu que todo o carnaval que ia para a Marquês de Sapucaí tinha virado um produto muito mais ligado ao trabalho do que propriamente à diversão. Ele lembra que as escolas de samba se tornaram organizações com estrutura empresarial, que o evento é mais rentável que o réveillon carioca, que a economia do samba movimenta um lucrativo negócio do turismo e que tudo isso só é possível pelo monopólio da TV Globo nas transmissões da festa.
“Isto se reflete nas escolas de samba onde a concorrência entre doze ou quatorze – como era a dois anos atrás – escolas diferentes pelo título é uma grande farsa, somente sustentada pelas organizações Globo, esta sim um dos grandes “tubarões” capitalistas nos bastidores do espetáculo, na qual tem forte influência e enormes ganhos econômicos”, afirma na sua dissertação.
É Calleia, mestre em Serviço Social, quem nos remete aos dois sambas-enredos que abrem esse texto. Segundo ele, “Peguei um ita do Norte”, do carnaval do Salgueiro em 1993, é o último samba a ocupar o imaginário popular e desde então pode-se decretar a morte do samba-enredo. “Bumbum paticumbum prugurundum”, de autoria de Aluízio Machado para o Império Serrano, é anterior, de 1982, mas não pode deixar de ser citado por conter na sua letra uma sofisticada crítica ao que, naquela época, já estavam se transformando os desfiles no Sambódromo.
“É carnaval, a folia, neste dia ninguém chora/ Super Escolas de Samba S.A./ Super-alegorias/ Escondendo gente bamba/ Que covardia!”
Calleia também faz uma reconstrução histórica da transformação das escolas de samba em Super Escolas de Samba S.A., que começa lá atrás na época do Estado Novo (1937-1945), quando elas despontam no cenário urbano do Rio de Janeiro. Ao perceber o valor e o espaço ocupado pelo gênero no imaginário popular, o Estado decide mudar “da coerção para o consenso”, legalizando e legitimando as escolas de samba. “Ao sair do morro e tomar de assalto o asfalto o samba se modifica. Cada vez mais popular e populoso, torna-se cada vez mais atrativo e vantajoso”, anota.
A geógrafa Vanir de Lima Belo defendeu a dissertação “O Enredo do Carnaval nos Enredos da Cidade – Dinâmica Territorial das Escolas de Samba em São Paulo” (USP, 2008). Essa pesquisa procura periodizar as transformações do carnaval paulistano, destacando a inserção dos desfiles nos diferentes circuitos da economia urbana. Traduzindo: a festa popular ganha novas formas quando ela passa a ser encarada como um negócio. A construção do Sambódromo paulista, em 1991 pela então prefeita Luiza Erundina, e o início das transmissões pela TV Globo oito anos depois mudaram de vez a cara do samba. Em entrevista à autora, o sambista e coordenador do Centro de Documentação e Memória do Samba Marcos dos Santos, afirma que a transmissão dos desfiles na TV:
“Acabou de desfigurar o carnaval. Não que eu seja purista, mas você vai assistir o desfile de uma escola de samba [na televisão] eles pegam metade da coreografia da Comissão de Frente e daí… Mulher pelada [o que segundo ele havia muito pouco antes do início das transmissões] E também não tinha artista. Aliás, tinha. Nós éramos os artistas. A gente perdeu essa condição. Nós não somos mais, somos apenas coadjuvantes. Não sei se você sabe que esse negócio de artista a Globo impôs. E eu sou testemunha, porque na minha escola foi imposto. Muitos presidentes negam essa história. Eu vi.”
Vanir ressalta ainda que a profissionalização do carnaval forçou a aceleração dos sambas-enredos para poderem se encaixar dentro do horário estabelecido pela emissora de TV. Assim como destaca que os desfiles se tornaram um grande filão para que empresas e outras entidades usassem essa vitrine da comunicação de massas para expor patrocínios e merchandising explícito. É um modelo que vale em São Paulo e no Rio.
Há mais de duas décadas, os CDs com os sambas-enredos dos carnavais paulista e carioca se tornaram obras com data de validade. Duram pouco. Esquecemos deles antes da chegada do inverno. Na edição de 2014, não é diferente. O que dizer da composição da Beija-Flor, que diz querer falar da importância da comunicação no Brasil e resume tudo à figura de Boni, o ex-todo-poderoso da TV Globo? Ou das músicas compostas para a Mocidade Independente de Padre Miguel, “Pernambucópolis” (de Dudu Nobre), ou para a Imperatriz Leopoldinense, “Arthur X”, uma homenagem ao jogador Zico? Ah, tem também “Acelera Tijuca”, que celebra o piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna, na da Unidos da Tijuca.
*Publicação do encarte Farofá, da Carta Capital