Inácio Carvalho: Messias Pontes e minha memória de menino

Eu ainda era um menino com 10 anos de idade quando escutei uma conversa entre as pessoas mais velhas que eu, lá em Sobral, sobre um sobrinho do Tio Gerardo Pontes, casado com a Tia Thermutes, única irmã da mamãe, que havia sido preso, torturado e levado para uma penitenciária em Pernambuco, algemado e encapuzado. Aquilo ficou guardado na minha cabeça junto com o nome do sujeito: Messias.

Por Inácio Carvalho*

Poucos anos depois, já morando em Fortaleza vivi a emoção de conhecer o dito cujo pessoalmente e agora já não era apenas o sobrinho do Tio Gerardo pois éramos camaradas de partido, partilhávamos militância no PCdoB, onde convivemos por mais de 30 anos. Ainda bem jovem tive a honra de exercer uma tarefa que o Messias já havia cumprido, a de chefe de gabinete do então vereador Chico Lopes e ele sempre me ajudava na empreitada, já que trabalhava como jornalista na Câmara de Vereadores de Fortaleza.

Tomei gosto pela "agitação e propaganda" do partido e nesse metier sempre nos encontrávamos. Integramos juntos a Comissão Estadual de Comunicação do PCdoB, que foi dirigida por ele durante um certo tempo e depois tive a honra, mais uma vez, de sucedê-lo. Aceitei com muita satisfação seu convite para ser comentarista de seu programa de rádio, veículo de comunicação pelo qual era absolutamente apaixonado e um defensor ferrenho. Por quase dois anos, toda terça feira, das 8h às 9h, eu vivia meus 60 minutos semanais de fama e senti a força do rádio, pois várias pessoas me diziam que todo dia escutavam meus comentários no Espaço Aberto, o "Programa do Messias Pontes", que era como todo mundo chamava aquela trincheira de combate à "imprensa venal e golpista", jeito que o Messias tratava a chamada "grande imprensa", onde trabalhavam alguns "colonistas", jeito irônico dele tratar alguns jornalistas amestrados pelas ideias oriundas dos "Isteites".

Foi bom que eu estivesse ao lado do meu filho Guilherme, por volta das 21h deste sábado, quando a jornalista Ivina Carla me ligou para dar a noticia da morte do Messias, ocorrida às 19,40. A companhia do Guilherme me permitiu falar pra pessoa que mais quero bem nessa vida sobre esse amigo que tanto bem eu aprendi a querer. Acho que a historia que contei pro meu filho reforçou nela a ideia, já anunciada há algum tempo por ele, de ser jornalista.

Neste domingo não terá brincadeira, não terá confusão, vamos lhe homenagear e nos despedirmos de você, camarada Messias. Vou vestir uma camisa vermelha para agasalhar minha alma dolorida devido a sua morte, mas lhe asseguro que a sua vida, a sua convicção democrática, revolucionária e socialista continuará sempre presente entre nós.

Um fraterno abraço, camarada bom.


* Inácio Carvalho é militante comunista e secretário estadual de comunicação do PCdoB/CE