Bergson Gurjão é tema de reportagem especial de revista da UFC

A edição de N° 51 da revista Universidade Pública, sob responsabilidade da Universidade Federal do Ceará (UFC), traz vasto material sobre Bergson Gurjão Farias, cearense morto em combate na Guerrilha do Araguaia que teve os restos mortais sepultados em outubro de 2009. Dentre lembranças e entrevistas, a publicação reconta a trajetória do jovem comunista que marcou a vida de familiares, amigos e camaradas. Leia a seguir a íntegra da reportagem.

Memória Bergson

Memórias de vida

A história de Bergson Gurjão, estudante cearense morto na Guerrilha do Araguaia, que teve seus restos mortais sepultados em outubro desse ano, depois de homenagem na Reitoria da UFC, ilustra os caminhos do combate à ditadura militar pós-64 e a incompleta democratização do Brasil, um país onde se caminha a passos lentos rumo à memória, à justiça e à verdade

O trinado das aves é entrecortado pela sonoridade macia da vegetação. O manto verde profundo sobrepuja a visão. Na região amazônica serpenteada pelo rio Araguaia, em Caianos, um grupo segue sob o calor da mata. Ressabiado, vai em direção a uma encomenda, um rolo de fumo, a ser entregue pelo camponês conhecido como Cearensinho. Na liderança, Jorge, que se destaca entre os pares tanto pela altura – próxima a 1.90 m – como pelo espírito alegre e brincalhão. Porém, antes do destino, dilacerando a imensidão da floresta, uma rajada de metralhadora surpreende os jovens, que saem correndo atordoados. Para trás fica Jorge, esvaindose aos 25 anos, perfurado por balas. Em pouco, o corpo jaz inerte sobre o solo, após golpes de baioneta.

Ao mesmo tempo, o fim e o começo. O ano era 1972 e terminava ali a vida de Jorge, ou melhor, de Bergson Gurjão Farias, cearense, primeira vítima do Estado brasileiro na Guerrilha do Araguaia. Mas começava também naquele momento o massacre sangrento em uma região praticamente esquecida pelos governantes; e o sofrimento de dezenas de familiares que, quase 40 anos depois deste episódio não obtêm respostas sobre as circunstâncias de morte e localização dos corpos de seus entes.

Guerrilha na Amazônia

Gestada no núcleo do PCdoB desde o início dos anos 60, motivada pelos ventos rubros que haviam soprado na Rússia, em 1917, e depois na China e, principalmente, em Cuba, em 1959, a Guerrilha do Araguaia foi um movimento de oposição ao regime ditatorial no Brasil. Ambientada na região da tríplice divisa entre Goiás, Pará e Maranhão, às margens do rio Araguaia, nas proximidades das cidades de São Geraldo do Araguaia e Xambioá (norte do Tocantins), a ação tinha como objetivo mobilizar a população local. Pobres, famélicos e analfabetos, os moradores, junto aos guerrilheiros, propulsionariam uma insurreição contra o regime, na época em crescente endurecimento, assim abrindo espaço para uma experiência socialista no País.

Escolhida devido ao isolamento e pouca presença do Estado, à vegetação copiosa e à fartura nas terras e águas, a região do Araguaia já era um barril de pólvora antes mesmo da Guerrilha. Conflitos entre grileiros, posseiros e garimpeiros manchavam de sangue o solo amazônico. A concentração de renda e o avanço no número de migrantes vindos do Nordeste acentuavam a pobreza.

Para inspirarem na população o espírito revolucionário, os combatentes adotaram a estratégia de mesclar-se ao modo de vida local. Com isso, chegaram à região, a partir de 1967, os primeiros combatentes: na maioria estudantes e profissionais liberais de classe média, que passaram a viver como agricultores, pescadores e pequenos comerciantes, além de prestarem serviços nas áreas de saúde e educação. Cerca de 80 pessoas fluíram para o Araguaia, a fim de preparar-se para a luta armada. Ademais, 20 camponeses aderiram à causa.

Deficiência de treinamento e armas, além do vazamento da notícia da preparação de uma guerrilha no Araguaia, para o Exército, antes que seus integrantes estivessem preparados para o combate, minaram as chances de vitória dos guerrilheiros. Entre 1972 e 1974, as Forças Armadas se dedicaram à repressão ao movimento, configurando a sua maior mobilização desde a Segunda Guerra Mundial: foram três campanhas, mobilizando por volta de cinco mil agentes. No saldo do conflito, em torno de 20 sobreviventes. Ainda foram mortos 11 militares e quatro camponeses, sem vínculos com o Partido ou o Exército. “A Guerrilha você tem de dividir em duas etapas: a fase do período antes da guerra, em que vivíamos uma vida normal, e a posterior à guerra, que é quando o Exército chega e nos descobre: aí veio a tensão nervosa, as emboscadas, as retiradas, tudo muito precariamente, pois fomos pegos de surpresa. Ainda não tinha o preparo devido, as armas ainda eram deficitárias, os depósitos não tinham em quantidade, a rede de informações estava no início”, aponta Luzia Reis, sobrevivente do Araguaia.

Com tantas mortes há de se questionar: teria a luta do Araguaia surtido algum efeito? Desempenhou algum papel na democratização do País ou seria apenas mais uma manifestação política da história do Brasil esmagada pelas forças opressoras? Para Myrian Alves, jornalista e pesquisadora da Guerrilha do Araguaia, o movimento foi essencial nesse processo de abertura política. “Na essência, entendo que um filho do Brasil realmente não foge à luta. No cotidiano da preparação da guerrilha, a esperança. Depois, o enfrentamento de uma realidade por três lados envolvidos: os guerrilheiros, os militares e a população. O despreparo militar para enfrentar uma utopia do período revelou a covardia do Estado, que não sabia – e não sabe – lidar com seu povo. Talvez ainda sinta vergonha pelos métodos utilizados e não obriga seus servidores a contar o que ali se passou. Um estado que feriu todas as leis e regras éticas, e o que é mais grave, o conhecimento regional de um povo, civil, para combater brasileiros que ousaram lutar. Foi a coragem desses resistentes e de outros também que marcaram a luta pela redemocratização”, profere.

Mesmo com o fim dos enfrentamentos na selva desde 74, a Guerrilha do Araguaia teve seu fim somente em 1976, com o assassinato de Ângelo Arroio, último comandante do movimento, no evento que ficou conhecido como “Chacina da Lapa”, em São Paulo. Trinta e sete anos passados desde a primeira morte – Bergson Farias – o Araguaia é uma questão inconclusa na história brasileira, com apenas dois de seus mortos localizados e identificados: Maria Lúcia Petit, em 1996, e Bergson, em julho deste ano, ambos enterrados no cemitério de Xambioá.

“Agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta…”

“Quem quer meu papagaio?” Era sob os versos da marchinha de Alvarenga e Ranchinho que Bergson anunciava a chegada a casa. Apaixonado por música, o jovem doce e espirituoso tinha na canção, sempre cantarolada incompletamente, a forma de saudar aos parentes. Beijos e “cheiros” eram distribuídos a quem encontrasse, fosse irmã, mãe, prima ou tia, o importante era demonstrar afeto. “Ele era muito brincalhão, muito afetivo em casa, adorava beijar. Até um dia o papai declarou ele como o beijoqueiro-mor da família”, afirma Ielnia Farias, irmã de Bergson.

Filho de Luíza Gurjão e Gessiner Farias, Bergson era o terceiro de uma família de quatro irmãos. Nascido em 17 de maio de 1947, o primeiro menino do casal ganhou o nome de um pensador. “Foi um filósofo francês, mas acho que foi mesmo porque o papai gostou do nome”, cogita Ielnia. Segundo Luíza Farias, mãe de Bergson, a denominação era um desejo antigo do marido. “No primeiro filho o Gessinger disse: ‘se for homem é Bergson’, e nasceu a Tânia. No segundo disse: ‘tudo bem, se tiver outro, vai ser Bergson’, e foi a Ielnia. Aí no terceiro ele disse: ‘quero mais do movimento, no evento que ficou conhecido como “Chacina da Lapa”, em São Paulo. Trinta e sete anos passados desde a primeira morte – Bergson Farias – o Araguaia é uma questão inconclusa na história brasileira, com apenas dois de seus mortos localizados e identificados: Maria Lúcia Petit, em 1996, e Bergson, em julho deste ano, ambos enterrados no cemitério de Xambioá. não’, mas eu disse ‘agora eu é que quero, já três filhos esperando!’, aí ele botou Bergson, explica.

Criança ativa, Bergson teve na rua Dom Joaquim o cenário para as primeiras brincadeiras. Futebol e jogos de rua, como a “bela bandida” (jogo de esconder), faziam a diversão entre ele e seus irmãos. “A gente brincava muito na rua, corríamos e nos escondíamos pros meninos acharem, e nisso ia bater no outro quarteirão. Era uma confusão de menino correndo pela rua”, afirma Ielnia. Ao lado das brincadeiras, competições de conhecimentos, imersão em culturas através do consumo frequente de discos, filmes e livros, além de discussões políticas promovidas pelos pais, fizeram desde cedo Bergson descobrir uma de suas paixões: a literatura. Leitor inveterado dos enredos policiais de Agatha Christie e as aventuras envoltas de mistério do personagem Sherlock Holmes, como de livros de romance de autores brasileiros, e Filosofia, ele tinha a sensível obra de Éxupery, O Pequeno Príncipe, como uma de suas favoritas.

Talvez tenha sido daí, inspirado nesse clássico da Literatura, que tenha surgido o anseio por aprender a pilotar. Ainda adolescente, Bergson teve lições no Aeroclube de Fortaleza. “Éramos quase da mesma idade e por isso tive com ele uma amizade muito grande. Era um rapaz muito animado, a gente ia para festas, as tertúlias do Náutico, gostávamos muito de seresta, nos divertíamos muito. Além disso, ele tinha boas aptidões para o vôo, chegou a fazer vôo solo”, destaca Emílio Celso Chagas, ex-instrutor de vôo de Bergson.

Outro interesse que atiçava o então adolescente Bergson era a língua inglesa. Ao mesmo tempo em que estudava em um tradicional curso de línguas da cidade, o jovem procurava praticar a conversação indo ao Porto do Mucuripe conversar com os estrangeiros que chegavam nos navios. “‘Era pra aprender o inglês dele, que ele tinha loucura. E acabou falando muito bem. Tinha uma vontade muito grande de falar inglês. O outro lado dessa história é que quando chegavam aqui aquelas meninas, porque a gente recebia meninas que faziam intercâmbio, acabou que ele namorou quase todas”, relembra, entre risadas, Tânia Farias, irmã de Bergson.

Mas se no âmbito cultural a literatura e a língua inglesa foram paixões para Bergson, a música pode, sem dúvida, ser declarada como um caso de amor. De acordo com Dona Luíza, o envolvimento de seu filho com a arte já era percebido desde pequenininho. “Quando ele tinha três anos ele disse assim: “agora vou ‘apresentar’ a Marcha do Caracol. Então, agarrado num cabo de vassoura começou ‘Há quanto tempo, ninaninaninana…, se é chuva apanho chuva…’ e o resto ele cantava todinho. Eu estranhava porque ele não sabia só aquele pedacinho e sabia todo o resto. Um dia desses pensando, achei que ele não cantava assim porque tinha casa pra morar, tinha tudo, porque o pedaço que ele não cantava era assim ‘Não tenho onde morar’. O negócio do Bergson era cantar. Só vivia em casa cantando, às vezes saia do banheiro enrolado na toalha cantando, e cantava muito no banheiro essa música: ‘O arrependimento quando chega faz chorar…’ Não era voz de cantor não, mas cantava direitinho”, declara.

Para quem conviveu com o jovem é difícil ouvir uma música de Noel Rosa, seu artista favorito, sem recordar do estudante cantarolando por todos os cantos. “Ele adorava ‘Com que Roupa’, do Noel Rosa, aliás, Noel é a cara dele. Gostava muito de ‘Conversa de Botequim, Último Desejo, Feitiço da Vila’ ”, exemplifica Ielnia. “Ele criava muita música também. Pegava a música e cantava outra letra”, completa Tânia.

Nos estudos escolares Bergson se saía bem. Tanto que fez, de uma dificuldade, mote para eleger o curso de Química da UFC. “Ele era muito inteligente, mas não era muito de sentar e estudar não. Aí o Bergson chegou para o papai, isso no final do ano, muito triste. Ele disse papai que ia ser reprovado em Química. A única forma de passar era se ele saísse de onde estudava e fosse para outro, um colégio pagou, passou. Então o papai disse assim: ‘você vai ser reprovado. Eu pago o colégio é para você aprender, não para você passar’. E o papai perguntou: ‘de quantos pontos você precisa para passar em Química?’, E ele disse que tinha de tirar dez nessa prova. Ai o papai disse: ‘pois você pense que atitude você vai tomar, faça de conta que nem me disse isso’ Aí no dia seguinte o Bergson foi na loja do papai e disse: ‘papai, pensei muito e decidi ver o que eu posso fazer’. E o papai disse: ‘ótimo meu filho, muito bom na sua decisão’. Aí ele enfiou a cara nos livros, quatro horas da manhã e ele estava trancado no escritório estudando sem parar, pedia explicação a um e a outro. Aí conseguiu tirar 10 e ficou louco por Química”, conta Ielnia Farias.

No esporte Bergson também escreveu sua trajetória, sendo atleta de natação, tênis e integrando a seleção de basquete do Náutico Atlético Cearense, onde demonstrava sua iniciativa e capacidade de comando. “Ele era um líder dentro e fora de quadra. Estimulava os companheiros, era um homem que poderia jogar em qualquer posição, apesar de ser melhor na defesa. Era uma pessoa de personalidade muito dócil, uma pessoa adorável. Para mim, foi um dos grandes atletas do Estado do Ceará”, avalia Roberto Bastos, ex-técnico de basquete do Náutico.

Da liderança de dentro de quadra para fora foi apenas um lance, ou melhor, um pulo. Foi com o ingresso na Universidade que o estudante destacou-se no movimento estudantil, chegando a ser Presidente do Diretório Acadêmico dos Institutos de Ciências da UFC e Vice-Presidente do Diretório Central dos Estudantes(DCE). “Ele era um cara forte, muito espontâneo, usava umas roupas frouxas, chinelão, era um cara natural. Todo mundo que chegava perto do Bergson ele abraçava, conversava, dialogava. No DCE havia, na época, muita disputa e o Bergson sempre procurava encontrar uma saída, tinha muito nele essa preocupação com a unidade do movimento estudantil. Era uma liderança nata e ao chegar à universidade e entrar em contato com o movimento estudantil transformou-se numa liderança política”, recorda Carlos Augusto Diógenes, o Patinhas, presidente do PCdoB e contemporâneo de Bergson.

Não demorou e a vivência política trouxe problemas ao jovem, que teve de sair de casa e viver na clandestinidade. O último contato com a família foi aos 21 anos, em São Paulo, com a irmã Tânia. Depois disso, as sim como o personagem de seu livro favorito, Bergson desaparecia para a família, sem nunca mais voltar.

Vida e Morte no Araguaia

Comandante do destacamento C, Bergson era tido como afável e prestativo pelos companheiros de guerrilha. Luzia Reis, que integrou o mesmo destacamento que o cearense, relata o primeiro momento em que viu o companheiro. “Estava na beira do rio Araguaia quando a pessoa que estava comigo falou: ‘alí vem o companheiro Jorge’. Quando vi aquele homenzarrão, alto, magro, imenso, sorridente… (pausa) Parou, amarrou a canoa, saltou no rio, com a calça enrolada até o joelho e chegou lá perto da gente. A pessoa que estava conosco falou: ‘esse é o Jorge; essa é a Lúcia’. Então ele me deu um abraço e falou: ‘a partir de hoje você vai viver na nossa casa e eu vou fazer de tudo para você se adaptar rápido". Ele era muito bacana, me ajudou muito”, afirma.

Segundo Luzia, Bergson levava uma rotina tranqüila no Araguaia até então. “Tinha boa saúde, só um problema no braço que ele havia quebrado ao cair de uma mula e não havia colado direito. Era muito conversador, falava da vida dele em Fortaleza, da família. Todo mundo adorava ele. Foi inclusive no batizado de várias crianças da região, era compadre de todo mundo. Adorava cantar ‘Com que Roupa’, músicas de boemia, e tinha uma voz linda. Quando ele tomava banho a gente só ouvia aquele vozeirão, ficava assoviando”, lembra.

Outra pessoa que teve contato com Bergson no Araguaia foi o hoje Deputado José Genoíno Neto. “Não éramos do mesmo destacamento, mas uma vez o encontrei uma noite, por acaso, no Araguaia. Mas naquele momento a gente não podia demonstrar que se conhecia. Depois, quando vi, já foi o corpo dele. Mostraram também a foto lá dele morto de olho aberto, como se estivesse vivo, isso me marcou muito. Ele foi um verdadeiro herói, que deu a vida naquela luta. Nós somos apenas sobreviventes”, relata.

Bergson morrera em combate, defendendo os colegas. Após a rajada de metralhadoras que atingiu uma de suas pernas, o jovem decidiu enfrentar os militares, chegando a ferir um deles. Não correu e foi assassinado dando cobertura aos outros, que puderam escapar naquele momento. Após sua morte, segundo relatos de testemunhas, o corpo foi amarrado de cabeça para baixo em uma árvore, tendo a cabeça chutada pelos paraquedistas, até a destruição de sua face. “Quando soubemos da morte dele todo mundo ficou muito triste, ele era muito querido. Lógico que todos eram importantes, mas logo ele?!”,questiona-se Luzia.

Reparação capenga

Uma chaga que segue aberta. É assim que pode ser definido o processo de reparação, não somente no caso Araguaia, mas à ditadura no Brasil. Punição aos torturadores, indenizações, abertura de arquivos secretos, explicações sobre desaparecidos, garantias de que o fato ocorrido não se repita, são alguns pontos de um contexto que deve ser vislumbrado por um estado em consolidação da democracia. E, dentre os países da América Latina que sofreram com períodos ditatoriais, o Brasil é o que caminha a passos mais lentos. Para a socióloga Daniele Nilin, que estudou esse processo na sua tese de doutorado “O preço do passado: anistia e reparação de perseguidos políticos no Brasil”, essa temática está ainda muito longe de ser resolvida no País. “É incrível que tenha acontecido aquele fato da Ditabranda, na Folha de São Paulo (episódio em março deste ano em que o referido jornal usou o termo para referir-se à ditadura no Brasil). Um negócio desses é impensável na Argentina. Tem a ver com o número de mortos, mas vai mais além. Nesses países, os próprios governos pós- democratização se encarregaram de criar uma série demecanismos de punição e de busca de verdade. Aqui no Brasil, as coisas ficaram muito tempo submersas, circunscritas aos grupos de familiares e perseguidos. Houve também uma transição muito prolongada da ditadura para a democracia. Talvez se tivesse constituído uma comissão de anistia ainda na década de 80 essa questão tivesse surgido mais cedo, mas a comissão foi constituída depois de 2000. A anistia foi em 79 e pelo menos uma geração passou. Tem a ver com a nossa cultura política e como os governos foram tratando essa questão, que era como uma batata quente passada de mão em mão”, avalia.

Nesse âmbito, um tema que vem levantando debates na sociedade são as buscas de informações sobre a morte e ossadas dos militantes desaparecidos na Guerrilha do Araguaia. Pressões dos familiares e políticas não bastaram e foi preciso que um pedido de explicações da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), ao Brasil, para que medidas fossem tomadas em relação a buscas dos desaparecidos no Araguaia. Envolta em polêmicas acerca de sua eficácia, uma vez que os arquivos militares secretos – que poderiam definir com maior precisão os pontos onde possam ser encontrados restos mortais – foi criada, este ano, uma comissão pelo Ministério da Defesa, com o objetivo de vasculhar a região do Araguaia. Composta por 30 integrantes, entre peritos legistas, geólogos, geofísicos, arqueólogos e membros da sociedade civil, o Grupo Tocantins abriga pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), da Polícia Federal e da Universidade Federal do Ceará, representada pelo Prof. Mariano Castelo Branco, geofísico.

Utilizando um equipamento conhecido como GPR (Ground-Penetrating Radar), que trabalha com a detecção de zonas que possam corresponder a materiais enterrados, a equipe da UFC já realizou atividade em duas expedições. “O prazo de atividades é até o final de outubro, masas pesquisas podem se estender até 2010”, explica Mariano. Segundo o pesquisador, as possibilidades de que seja encontrado algo são pequenas. “Estão sendo selecionadas áreas através de entrevistas e pesquisas onde nós estamos desenvolvendo nosso trabalho de pesquisa geofísica e imageamento da subsuperfície. Esse é um trabalho realmente bastante árduo, que envolve muitas horas de aquisição de dados e processamento das áreas. Esses aspectos do que aconteceu naquela região, 35 anos atrás, ficaram na história e na cabeça das pessoas. Então, decorrido todo esse tempo, com informações que às vezes podem ser duvidosas, com interesses envolvidos que devem ser diversos, é complicado”, afirma.

Para as famílias que tiveram parentes desaparecidos, as buscas podem propiciar um momento importante para a superação do luto, que é enterrar seus restos mortais. No entanto, para os familiares dos demais cearenses mortos no Araguaia, a angústia parece se prolongar por mais tempo, com as poucas chances de localização dos restos mortais. “Tenho uma irmã que está lá acompanhando as buscas, mas é muito difícil, pois uns dizem que foi enterrado, outros, que foi cortada a cabeça e queimado o corpo junto com pneus, então não se sabe ao certo”, detalha Paulo Teodoro de Castro, irmão do estudante de Farmácia Teodoro de Castro. Breno Moroni, irmão de Jana Barroso, ainda é mais pessimista: para ele não há mais chance de se encontrar algo. “Acho que os bravos combatentes da selva gostariam de continuar sepultados em seu campo de luta. De pouco adiantaria agora, já que nossos pais também já morreram à espera de notícias oficiais que nunca vieram”, conclui. Já Demócrito Quaresma vê possibilidades de que seu primo, o estudante secundarista Custódio Saraiva, possa um dia ter um funeral. “É possível, assim como para todos os outros que estão ali”, pondera. No entanto, além da constatação da morte é preciso a punição dos algozes. “É importante o resgate dos corpos, mas tem que vir junto com o esclarecimento dessas mortes. A responsabilização dos culpados é fundamental. Enquanto não houver isso não haverá justiça”, avalia Elisabeth Silveira, do grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro.

Neste ano, com a Lei da Anistia chegando a sua terceira década, o debate em torno da punição aos torturadores parece ganhar impulso: o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entrou, em outubro do ano passado, no Supremo Tribunal Federal (STF), com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) requerendo que o STF declare que a anistia não se estende a crimes comuns praticados por agentes da repressão contra opositores do regime militar. Ministério da Defesa e Advocacia Geral da União defendem que a anistia como ampla e irrestrita, perdoando os crimes cometidos pelos agentes da repressão. Já o Ministério da Justiça e a Secretaria de Direitos Humanos levantam ser imprescritível o crime de tortura, devendo, portanto, serem responsabilizados os torturadores.

Um balanço de avanços importantes no passado, mas insuficientes para o presente, é o que faz o presidente da Associação Anistia 64/68, Mário Albuquerque, sobre a lei de 79. “É uma lei que não foi ampla, nem geral, nem irrestrita, como nós defendíamos, tanto que até hoje ela não terminou, se luta pela anistia. Era uma anistia ainda na vigência na ditadura, o que é incomum, pois as anistias são decretadas após o fim dos governos autoritários; os governos novos surgem e decretam a anistia. No caso do Brasil foi diferente, por isso que ela é questionada até hoje, o Direito Internacional não aceita o que se chama de autoanistia. A ditadura foi muito esperta, pois quando viu que os dias dela estavam contados, se antecipou ao processo. Nossa tradição é: 'façamos a revolução antes que o povo a faça, façamos a mudança para tudo continuar na mesma'. É a esperteza da classe dominante do Brasil. Quando percebem que vai haver uma mudança eles se antecipam, então impedem que essa mudança seja no sentido verdadeiro dela’", discorre.

Para a família de Bergson Gurjão Farias, parte da reparação veio com 37 anos de atraso, pós uma longa batalha pela identificação das ossadas. Mesmo com o passar dos anos e a esperança já minguando, constatar a morte do filho foi um choque para Dona Luíza Farias. “Quando desapareceu, pensava que ele poderia ter saído de São Paulo para outro canto. E eu sempre rezando, sempre rezando, mas umas vezes eu tinha umas certas intuições. Eu estava dormindo, aí me veio aquele negócio: ‘o Bergson morreu’. Aí me levantei depressa e pensei que o sonho era com o Gessinger, que já estava doente do coração. Talvez fosse ele (Bergson), ele veio me dizer essa vez. Eu tomei um susto muito grande quando soube, tive assim um acesso de choro. Há muitos anos que eu não chorava, mas depois passou, depois de tanto tempo nem sei nem chorar mais não”, conta.

Antes considerado “terrorista”, Bergson teve no dia 6 de outubro, um enterro com honras de Estado. Seus restos mortais foram trazidos de Brasília, em um avião da FAB e conduzidos em um carro de bombeiros até a Reitoria da UFC. Lá, Bergson foi homenageado em uma cerimônia fúnebre e, logo após, sua ossada foi transportada até o cemitério Parque da Paz. Um elo se fecha, o filho retorna para próximo da mãe e a história poderá contar a trajetória de um jovem que não só sonhou, mas ousou lutar por um país mais justo. “Bergson foi bastante popular em seu tempo, tanto no Ceará quanto na região de São Geraldo (PA) e Xambioá (TO). É o seu retorno ao lugar onde tudo começou, em meio às agitações mundiais de 1968. Representa também a presença da luta de outros estudantes da UFC e do movimento secundarista cearense. Uma homenagem merecida e bonita perante a história do País. Lembrando a música ‘Com que Roupa’, do Noel, que ele tanto gostava, imagino que ele ‘se aprumou’, finalmente”, afirma a pesquisadora Myrian Alves.

Fonte: Revista Universidade Pública